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Sem bisturi: a sala da USP onde alunos de medicina “entram” num coração pulsando

Entrar em um pulmão, atravessar um alvéolo — uma dessas minúsculas bolsas de ar dos pulmões — e observar um coração pulsando por dentro, sem sair da sala de aula.

A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) ganhou, na sexta-feira, 16 de outubro, uma nova Sala de Ensino Virtual dedicada ao estudo de anatomia e patologias (doenças) e à simulação de cirurgias. O ambiente, que reúne simulação tridimensional e imersão em realidade virtual, ainda é raro nas escolas médicas brasileiras, segundo o Jornal da USP — e, segundo o Estadão, a novidade pretende aliar inovação, inteligência artificial e novas possibilidades para o aprendizado da anatomia humana.

De acordo com o Estadão, o investimento anunciado pela própria faculdade foi de 3 milhões de reais — valor declarado pela instituição —, vindos de recursos da FMUSP, de doações privadas e de uma emenda parlamentar estadual (verba pública indicada por um parlamentar) de 350 mil reais, usada para comprar os óculos de realidade virtual da sala e também do Centro de Treinamento em Procedimentos Minimamente Invasivos (PROMIN), onde são realizadas cirurgias robóticas. A estimativa da instituição é que a iniciativa beneficie até 3,2 mil alunos — que, por enquanto, acessam a sala em fase de testes: ela só deve compor as aulas nos próximos semestres.

Anatomage Table: o cadáver que vira de ponta-cabeça

No centro da sala está a Anatomage Table, uma mesa de simulação anatômica de alta definição conectada a telões interativos. É a partir dela que os estudantes manipulam estruturas do corpo humano em escala real, realizam dissecações digitais e simulam intervenções cirúrgicas — quantas vezes forem necessárias, sem risco e sem perda de material, conforme detalha o Jornal da USP.

O que diferencia a ferramenta de um modelo gráfico genérico é a origem dos dados: o software funciona a partir de um banco de imagens de cadáveres reais doados para estudo, cujos tecidos e cortes em escala milimétrica foram digitalizados e catalogados. Na prática, segundo o Jornal da USP, isso ajuda a contornar um dos gargalos mais antigos do ensino médico — a limitação física e a escassez de corpos para treinamento — e permite ainda carregar diferentes perfis de pacientes e patologias em aula.

Dez óculos de realidade virtual para “viajar” pelo corpo

Ao redor da mesa, dez óculos de realidade virtual levam a imersão a outro nível. A diretora da FMUSP, Eloisa Bonfá, resumiu ao Jornal da USP: “A experiência é tão realista que agora você pode literalmente entrar em um alvéolo ou em um coração pulsando. Quem vê comenta que dá até vontade de fazer medicina de novo.”

A impressão é reforçada pela diretora ao Estadão, ao descrever o que o ambiente virtual permite: “você consegue virar o órgão de ponta-cabeça. Você pode entrar no pulmão, no coração, viajar, olhar como é que é a válvula.”

A tecnologia chega para somar — não para substituir

Apesar do salto, a direção da FMUSP é categórica: o ambiente digital não substitui o contato com o corpo real. A sequência pedagógica, explicou Bonfá ao Estadão, começa no cadáver fresco — “precisa saber apalpar, ver a consistência” —, passa pelo cadáver formalizado (conservado em formol), no qual o estudante descobre onde está cada músculo e como é cada órgão, e só então chega ao virtual, que amplia a repetição e a visualização tridimensional.

O robô Da Vinci entra na mesma conta

A modernização do currículo também tem braço robótico — literalmente. No PROMIN, a faculdade incorporou ao ensino um robô Da Vinci — o primeiro da América Latina destinado exclusivamente ao ensino, segundo a FMUSP e o Estadão.

A entrega da sala fez parte de um conjunto de inaugurações que incluiu também, no complexo de saúde da USP, o segundo andar reformado da Biblioteca Central e o Instituto de Pesquisa Clínica do Hospital das Clínicas — voltado ao desenvolvimento e à validação de novos medicamentos e terapias —, relata o Jornal da USP. Já no tradicional Laboratório de Anatomia, o artista plástico Canato pintou ilustrações anatômicas nas paredes, de forma voluntária, para suavizar o impacto inicial dos calouros.

O projeto da sala foi desenhado pela Comissão de Graduação da faculdade e viabilizado por um edital da Pró-Reitoria de Graduação — chamada pública de financiamento da própria universidade — lançado em 2024, somado a parcerias e doações que garantem a renovação contínua das licenças dos softwares.

O que observar daqui pra frente

O momento é simbólico: a inauguração marcou os últimos dias da gestão de Eloisa Bonfá (2022–2026) — a primeira mulher a dirigir a FMUSP em mais de 110 anos de história. O balanço institucional apresentado em 23 de outubro destaca ainda a criação de um Centro de Inteligência Artificial e, no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) de 2025, o conceito máximo para o curso, com 99% de proficiência dos estudantes.

O pano de fundo nacional ajuda a entender o destaque: como apontou um professor da USP em matéria relacionada do Estadão, há escolas de medicina no país sem laboratório de anatomia — enquanto a FMUSP aparece na 43ª posição mundial no QS World University Rankings by Subject, na liderança da América Latina.

Fica o que observar daqui pra frente: se a sala sai do regime de testes e entra nas aulas nos próximos semestres, como uma mesa e dez óculos darão conta de até 3,2 mil alunos — e se o modelo de anatomia digital e robô cirúrgico didático se espalha por outras escolas de medicina do país.

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Fonte original: USP inaugura sala virtual que permite dissecação digital e simulação de cirurgia - O Estado de S. Paulo, por Alice Ferraz e Marcele Dias (24/10/2026). Fatos complementares verificados em Da anatomia virtual aos testes de novas terapias: Medicina da USP dá salto tecnológico no ensino e na pesquisa clínica - Jornal da USP, por Michel Sitnik, e em página institucional da FMUSP sobre o encerramento da gestão 2022–2026.

Imagem: Profissional de saúde com jaleco e estetoscópio ajustando um headset de realidade virtual, por Michael Berdygin, via Pexels, sob a licença Pexels.

O valor de 3 milhões de reais não tem prestação de contas pública e detalhada; a estimativa de até 3,2 mil alunos beneficiados é da própria instituição.


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