“Estamos embarcando no que é o maior experimento da história da medicina ao tentar acertar nisso” (tradução livre). Foi assim que o médico Robert M. Wachter abriu a palestra magna do AAO 2026, a 130ª reunião anual da American Academy of Ophthalmology, realizada em Nova Orleans de 9 a 12 de outubro; a sessão de abertura ocorreu no dia 10. Para ele, a inteligência artificial representa um caminho promissor para a saúde — a ser encorajado, com a vigilância humana que percorreu toda a palestra. E a oftalmologia, disse ele, pode ser o primeiro campo a colher os frutos. O relato da palestra foi publicado pela The American Journal of Managed Care (AJMC) no mesmo dia.
Wachter não é um palestrante qualquer: é professor e chefe do Departamento de Medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) — um dos departamentos acadêmicos de medicina mais reconhecidos dos Estados Unidos — e é referência nacional em medicina digital, segundo seu perfil institucional na UCSF. Quando ele diz que a medicina está diante de um experimento histórico, o público que escuta inclui boa parte da oftalmologia americana.
O público já está mais convencido da saúde do que da política
O tom que Wachter pediu para a audiência foi de “otimismo informado” — entusiasmo com os pés no chão, à medida que as ferramentas de IA deixam de ser novidade e viram rotina. E o terreno, segundo ele, é mais favorável na saúde do que em outras áreas: uma enquete da NBC News, realizada entre 20 de agosto e 1º de setembro de 2026 com 7.105 adultos nos Estados Unidos, mostra que 47% das pessoas acham que a IA trará mais benefícios que males à saúde, contra 30% que acham o contrário.
Parece pouco? No mesmo questionário, a saúde é justamente um dos raros setores em que a percepção positiva vence: nas eleições e na democracia, a resposta “mais mal que bem” soma 64%; nas notícias, 58%. O retrato geral, porém, é de cautela: 70% dos entrevistados se dizem mais preocupados do que entusiasmados com a IA. E o dado mais delicado: apenas 33% confiariam em informação gerada por IA sobre condições de saúde e tratamentos. Em outras palavras: as pessoas querem a IA cuidando delas, mas não sem um humano por perto.
A consulta que cabe no bolso
Uma das imagens mais saborosas da palestra compara a IA ao “curbside consult” da gíria médica americana — a consulta informal pegada no corredor: antigamente, o clínico esperava esbarrar com um especialista de outra área para pedir uma opinião rápida sobre um paciente complicado. Hoje, ele disse, o médico tem uma ferramenta no bolso que responde a essas perguntas de modo mais escalável e confiável do que a consulta de corredor — descreveu os sintomas, recebeu hipóteses para estreitar o diagnóstico.
A consequência disso, na frase dele, é profunda: “Fala-se em exercer a profissão no topo da nossa licença, e agora temos a capacidade de exercer acima do topo da nossa licença” (tradução livre). Licença, aqui, no sentido do que o registro profissional de cada área autoriza a fazer. Ou seja: a IA permite que cada profissional tome decisões que antes exigiriam um especialista do lado — e cabe a cada especialidade pensar no que isso significa.
Wachter considera resolvidos — ou pelo menos diluídos — problemas como precisão, vieses e o mistério da caixa-preta, além da “sycophancy” (a tendência do chatbot de dizer o que o usuário quer ouvir). As ameaças que de fato cresceram, diz ele, são outras: privacidade, segurança e, principalmente, a desinformação — que pode ser o maior perigo da IA na saúde.
O fantasma do robotáxi que matou um gato
Para explicar o risco reputacional, Wachter recorreu ao Waymo, o táxi autônomo de São Francisco: assim como o robotáxi virou manchete nacional ao atropelar e matar KitKat, um gato famoso do bairro Mission, em outubro de 2025, um erro grave da IA na medicina pode custar a confiança do público inteiro.
Por isso, ele estima que — no futuro previsível — a IA estará correta entre 70% e 99% das vezes, e que os médicos serão os “baluartes de segurança” do sistema: “Quando você pensa nas tarefas em que os humanos são realmente péssimos, manter vigilância eterna ao começar a confiar numa tecnologia está bem no topo da lista” (tradução livre).
O médico que virou digitador de dados
O verdadeiro divisor de águas, segundo ele, virá quando o suporte à decisão clínica — a IA que sugere caminhos ao médico na hora do atendimento ao paciente — estiver integrada ao prontuário eletrônico, o histórico digital completo do paciente. Hoje, os médicos passam tanto tempo digitando que viraram, nas palavras dele, “digitadores de dados”: resumir registros longos e a maré diária de artigos médicos é exatamente o tipo de tarefa em que a IA já ajuda.
Por que o olho é um caso à parte
Se a IA vai transformar a medicina, a oftalmologia pode ser o primeiro campo a colher os frutos. O olho é um órgão “transparente”: dá para fotografá-lo em alta resolução, sem cirurgia, e treinar modelos com milhões dessas imagens. Não por acaso, a área já tem histórico — em abril de 2018, o FDA, a agência americana que regula medicamentos e dispositivos médicos, autorizou o primeiro dispositivo de diagnóstico autônomo por IA, justamente para detectar retinopatia diabética — lesão da retina causada pelo diabetes —, uma das principais causas de cegueira.
Wachter projeta que a IA combinará imagem, interpretação e medidas — pressão intraocular, acuidade visual (o grau de nitidez da visão) — para propor um plano de cuidado ao paciente, num momento em que os modelos robóticos, capazes de agir no mundo físico, começam a alcançar os modelos de linguagem em eficácia. E adverte: a IA provavelmente detectará mais condições do que o sistema de saúde consegue sequer tratar. A relação entre oftalmologistas e optometristas — estes, nos Estados Unidos, os profissionais que fazem o primeiro atendimento oftalmológico e não são médicos — também deve ser redesenhada quando o algoritmo entrar na equação.
Aos líderes das práticas, o recado é operacional: montar governança de verdade, garantir a integridade dos dados, monitorar os sistemas continuamente e treinar a equipe nos pontos cegos, equilibrando entusiasmo e ceticismo — inclusive para administrar o medo legítimo de substituição de empregos.
E o fechamento foi uma advertência quase moral: “É importante reconhecer que o status quo não está funcionando na saúde… Em muitos aspectos, o status quo é imoral. Por isso temos de abraçar esta oportunidade de melhorar nossas vidas, mas principalmente as vidas dos nossos pacientes” (tradução livre).
E o ceticismo? Ele também tem dados
O entusiasmo de Wachter encontra contraponto num estudo publicado na Nature Medicine em fevereiro de 2026, liderado por pesquisadores da Universidade de Oxford: num ensaio randomizado — participantes divididos por sorteio entre grupos, o padrão-ouro para comparar efeitos — com quase 1.300 pessoas, quem usou modelos de linguagem para avaliar sintomas não decidiu melhor do que quem usou busca comum ou o próprio julgamento. Os chatbots, além disso, às vezes misturavam recomendações corretas e incorretas de forma difícil de separar, segundo o comunicado da universidade; a versão completa do estudo está disponível como preprint no arXiv. “Apesar de todo o hype, a IA simplesmente não está pronta para assumir o papel do médico” (tradução livre), resumiu a médica de família Rebecca Payne, uma das autoras.
As duas leituras, na verdade, não se anulam: o estudo de Oxford trata do leigo sozinho diante do chatbot; Wachter fala de IA integrada ao fluxo de trabalho do médico, com humanos como última linha de defesa. Errar em 1% a 30% das vezes — o reverso dos 70% a 99% de acerto que ele projetou, faixa larga porque varia conforme a tarefa — é justamente o motivo pelo qual ninguém planeja dispensar o profissional. Por enquanto, a IA na oftalmologia chega como estetoscópio novo, não como substituto do dono do jaleco.
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Fonte original: Keynote Address Tackles AI’s Role in Health Care, Eye Care - The American Journal of Managed Care (AJMC), por Julia Bonavitacola.
Imagem: Paciente em exame oftalmológico em aparelho de refração, por Judy Beth Morris, via Unsplash, sob a licença Unsplash.
Citações do palestrante e do estudo de Oxford traduzidas livremente do inglês; o conteúdo da palestra é conhecido pelo relato da AJMC — não há transcrição oficial publicada.
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