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Grandes empresas apostam centenas de bilhões em IA: ElevenLabs dobra para 22 bilhões de dólares, enquanto pesquisa da SAP alerta para a 'armadilha da produtividade'

Quatro anos atrás, a ElevenLabs levantou sua primeira rodada de investimento, avaliada em 9 milhões de dólares. Agora, a desenvolvedora de IA de voz — cujos agentes conversacionais são programas que falam com clientes por voz ou texto sem passar por humanos — dobrou de valor, chegando a 22 bilhões de dólares (plataforma em elevenlabs.io). O salto veio de uma oferta de compra de ações (tender offer) de 300 milhões de dólares feita diretamente a funcionários: dinheiro que sai do bolso de investidores e não entra no caixa da empresa (ElevenLabs; FinTech Global, 7 de outubro de 2026). No mesmo período, uma pesquisa da SAP SuccessFactors — divisão de software de gestão de pessoas da alemã SAP — alerta que as organizações podem estar otimizando o futuro do trabalho para eficiência quando deveriam desenhá-lo para valor (SAP News).

Os dois movimentos, lidos juntos, expõem a tensão central de 2026: o dinheiro nunca fluiu tão rápido para a IA, mas o retorno sobre esse investimento continua sendo a pergunta sem resposta fácil.

Uma avaliação que dobrou em oito meses

O número impressiona pela velocidade. A ElevenLabs valia 11 bilhões de dólares em sua rodada Série D de fevereiro de 2026 — quando levantou 500 milhões de dólares liderados pela Sequoia Capital (ElevenLabs; Reuters, 4 de fevereiro de 2026). Oito meses depois, sem levantar capital novo, dobrou de valor. De 9 milhões de dólares em 2022 para 22 bilhões agora, o salto é de mais de 2.400 vezes — uma trajetória que ajuda a explicar por que a palavra “bolha” voltou ao vocabulário de Wall Street (ElevenLabs).

A operação foi liderada pela Wellington e pela T. Rowe Price, duas gestoras globais de investimento, e trouxe novos nomes como o Goldman Sachs, o fundo soberano de Singapura GIC e a gestora sueca EQT, além de acionistas antigos como Andreessen Horowitz e Lightspeed, entre outros (ElevenLabs; Tech.eu, 30 de setembro de 2026).

Como uma empresa dobra de valor sem levantar um centavo novo? No caso da ElevenLabs, o tender offer deu liquidez a quem construiu a companhia — funcionários e acionistas antigos venderam parte de suas ações. A empresa diz que pretende repetir a operação em programas futuros de liquidez (ElevenLabs).

O que sustenta essa avaliação, segundo a própria empresa, é a adoção corporativa. A receita de clientes empresariais já representa 55% do total; os agentes da plataforma, batizados de ElevenAgents, processam mais de 15 milhões de conversas por semana — o triplo do registrado em fevereiro —, e a receita recorrente anual (ARR, sigla em inglês para a receita anualizada de contratos recorrentes) da plataforma mais que triplicou no mesmo período (ElevenLabs).

Quem já usa: de bancos a governos

O setor financeiro virou vitrine importante. Segundo a empresa, sua tecnologia é usada por metade das dez maiores seguradoras do mundo e aparece nas operações diárias de cinco das dez maiores empresas de tecnologia e quatro das dez maiores de telecomunicações. Entre os clientes citados estão a Stripe (pagamentos), o banco americano Customers Bank, a seguradora britânica Admiral, a Deutsche Telekom, a SevenRooms — empresa de software de reservas do DoorDash — e a Cadence, além dos governos da Ucrânia e da Grécia (FinTech Global; ElevenLabs).

Na prática, os agentes de voz assumem tarefas de atendimento: processar reembolsos e trocas, renovar apólices de seguro, atualizar planos de telefonia, agendar consultas de saúde e orientar o acesso a serviços públicos. A empresa diz que tem desenvolvido produtos específicos para o setor financeiro (FinTech Global).

Um dado chamou atenção no anúncio: uma análise interna da ElevenLabs sobre implantações de clientes concluiu que agentes de voz resolvem problemas, em média, 31% mais rápido que alternativas baseadas em chat. É um número da própria empresa, sem auditoria independente — e convém tratá-lo como tal (FinTech Global).

A base técnica por trás disso são modelos que falam, ouvem e traduzem em mais de 90 idiomas. Entre os lançamentos recentes da empresa estão o Eleven v4 e o v4 Turbo, seus modelos de conversão de texto em fala, além do Scribe v2 Medical, voltado à transcrição na área de saúde. A ElevenLabs não está sozinha nesse mercado: a Cartesia, por exemplo, segundo materiais da própria empresa, concorre com modelos de voz em tempo real e já atende companhias como a ServiceNow, de software corporativo, e a Decagon, startup de atendimento por IA (Cartesia).

Nem tudo, porém, são boas notícias para a adoção. Uma pesquisa da J.D. Power mostrou que menos de 30% dos consumidores confiam em chatbots de IA para obter informações e conselhos financeiros (American Banker). E a mesma tecnologia de voz que move o atendimento é também um vetor de fraude: segundo o FBI, americanos perderam mais de 893 milhões de dólares em golpes ligados à IA em 2025, incluindo clonagem de voz, com pouco áudio real bastando para replicar a voz de alguém (CNN, 29 de maio de 2026). Em abril de 2026, a senadora Maggie Hassan, do Comitê Econômico Conjunto dos Estados Unidos, enviou cartas à ElevenLabs e a outras empresas de voz pedindo detalhes sobre como evitam o uso fraudulento — as empresas não foram acusadas de irregularidade, e a ElevenLabs afirmou manter “um conjunto abrangente de salvaguardas” (Axios, 16 de abril de 2026).

O outro lado da conta: onde foi parar o dinheiro

Se a ElevenLabs é a face visível do apetite corporativo por IA, os números da infraestrutura mostram a escala da aposta. Só Google, Amazon, Meta e Microsoft elevaram seus gastos de capital — o dinheiro investido em infraestrutura física, como galpões, servidores e chips, diferente da despesa do dia a dia — para cerca de 725 bilhões de dólares em 2026, e analistas de Wall Street projetam que esse total ultrapasse 1 trilhão de dólares em 2027 (FinanceBuzz/AOL, 18 de agosto de 2026; CNBC, 30 de abril de 2026). Só a Microsoft e a Amazon devem gastar perto de 200 bilhões de dólares cada uma na construção de data centers neste ano (Fortune, 27 de julho de 2026).

O problema é que gastar não é o mesmo que colher. Um estudo do MIT de 2025 mostrou que cerca de 95% dos projetos-teste de IA generativa (a que cria texto, imagem e voz) montados por empresas não geravam retorno mensurável — apenas 5% aceleravam a receita rapidamente (Fortune, 18 de agosto de 2025).

Uma pesquisa da consultoria McKinsey publicada em agosto de 2026 reforçou o diagnóstico: apenas 37% dos entrevistados atribuíam algum impacto ao lucro operacional (EBIT) por causa da IA, praticamente o mesmo patamar do ano anterior, e só 6% eram considerados “de alta performance”. A conclusão da McKinsey resume o momento: “a convicção das organizações na IA cresce mais rápido do que o retorno financeiro imediato que elas conseguem atribuir a ela” (The Register, 25 de agosto de 2026).

Parte dos analistas vê nisso o desenho de uma bolha. O valor das empresas ligadas à IA subiu 27 trilhões de dólares em três anos — o equivalente a 36% do valor de todo o mercado acionário americano, observou a revista The Atlantic num ensaio de opinião de julho de 2026 (The Atlantic).

A pergunta que fica: a IA vai gerar valor na mesma proporção em que consome capital?

A pesquisa da SAP: eficiência não é a mesma coisa que valor

É nesse ponto que entra o alerta da SAP SuccessFactors. O laboratório Future of Work Research Lab da empresa monitorou mais de 500 fontes e conduziu uma pesquisa global com 2.718 funcionários, 500 líderes de alto escalão (C-suite), 60 executivos de RH e fundadores de empresas nascidas em torno de IA. A autora principal é a Dra. Autumn D. Krauss, cientista-chefe do laboratório (SAP News).

A conclusão central: as organizações estão otimizando o futuro do trabalho pela ótica da eficiência — tempo economizado, custo reduzido, produtividade — quando deveriam desenhá-lo para gerar valor. A pesquisa chama isso de “armadilha da produtividade”. Reduzir custos é fácil de medir; a pergunta difícil é o que fazer com a capacidade que a IA libera (SAP News).

Os números do levantamento reforçam o diagnóstico:

  • 88% dos funcionários dizem que seus empregos já mudaram por causa da IA — mas metade dessas mudanças ocorreu sem orientação significativa de gestores ou da organização.
  • Entre 55% e 70% dos funcionários relatam não ter recebido nenhuma orientação organizacional clara sobre as mudanças que precisam navegar.
  • 72% dos líderes C-suite afirmam que a maioria das empresas que alega transformar o trabalho com IA está, na verdade, apenas automatizando empregos existentes mais rápido.

Ou seja: a tecnologia avança, mas a maioria das empresas não tem um plano claro sobre o que fazer com ela além de cortar custos.

A pesquisa propõe seis deslocamentos para redesenhar o trabalho — de especialista para generalista, de empregos estáticos para papéis dinâmicos, de estrutura em pirâmide (muitos degraus de chefia) para estrutura em diamante (menos gerentes no meio e mais gente na base), de foco em produção para foco em impacto, de decisão centralizada para decisão descentralizada e de gestão de pessoas para autoliderança. Num estudo experimental, funcionários relataram 77% mais autonomia sob decisão descentralizada, e papéis dinâmicos foram percebidos como 49% mais desafiadores que empregos estáticos — números que vêm de respostas a questionários, não de medidas objetivas (SAP News).

A SAP também repensa o próprio RH, com três pilares: automatizar o trabalho administrativo, redesenhar tarefas e equipes em torno de pessoas e IA e reinventar como as empresas medem, recompensam e desenvolvem talentos. Executivos estimam que 49% do trabalho de RH estará totalmente automatizado em cinco anos, contra 35% do trabalho empresarial em geral (SAP News).

O que os dois casos dizem juntos

Há uma conexão direta entre a valorização da ElevenLabs e o alerta da SAP: os agentes conversacionais que a ElevenLabs vende são, hoje, um dos principais veículos de automação de atendimento nas empresas — exatamente o tipo de uso que a SAP classifica como “eficiência, não valor”. Uma seguradora que troca parte do call center por agentes de voz reduz custo (e a ElevenLabs fatura com isso), mas a pesquisa sugere que o ganho real depende de redesenhar o processo em torno da nova capacidade, não apenas substituir tarefas.

Há evidências independentes de que essa substituição pura e simples cobra um preço. A Klarna, empresa sueca de pagamentos (do tipo “compre agora, pague depois”), adotou uma estratégia de “IA primeiro” no atendimento e depois voltou a contratar pessoas: o CEO, Sebastian Siemiatkowski, admitiu que a abordagem levou a um atendimento “de qualidade inferior” (Fortune, 9 de maio de 2025). No lado do desempenho individual, o Work Trend Index de 2026 da Microsoft — baseado em sinais de produtividade de trilhões de interações anonimizadas e numa pesquisa com 20 mil trabalhadores em 10 países — encontrou uma “paradoja da transformação”: os trabalhadores estão prontos, mas as organizações não. Segundo o estudo, os fatores organizacionais (cultura, apoio de gestores, práticas de talento) pesam o dobro do esforço individual no impacto real da IA (Microsoft WorkLab, 5 de maio de 2026).

Também há quem duvide das projeções mais otimistas. O economista Daron Acemoglu, do MIT, vencedor do Nobel de Economia de 2024, estima que a IA entregará cerca de 0,55% de ganho de produtividade total dos fatores na próxima década — a medida de quão eficiente uma economia inteira produz; na prática, um ganho quase nulo, uma fração das projeções de Wall Street — e que apenas cerca de 5% das tarefas serão lucrativamente automatizadas no curto prazo. Ele também alerta para o risco de a pesquisa sobre o impacto da IA vir justamente das empresas com mais a ganhar com conclusões favoráveis (Fortune, 21 de junho de 2026).

Vale registrar duas ressalvas. A primeira: a pesquisa da SAP é da própria SAP SuccessFactors, que tem interesse comercial em vender software de gestão de pessoas — o discurso “redesenhe o trabalho, não apenas automatize” também é, em parte, uma tese de vendas, e a empresa vende produtos exatamente para esse “redesenho” (SAP News, 6 de outubro de 2026). A segunda: quase todos os números operacionais da ElevenLabs são alegações da própria companhia, não dados auditados por terceiros.

O que os dois movimentos deixam claro é que 2026 consolidou uma fase em que a IA deixou de ser experimento e virou linha de orçamento. Para quem tenta se orientar nesse cenário — em que cada semana traz um modelo novo e uma avaliação bilionária nova —, vale acompanhar as comparações entre as principais ferramentas: nossa análise comparativa dos melhores modelos de IA reúne e avalia as opções disponíveis no mercado. A discussão que começa agora não é mais “se” as empresas vão investir em IA, mas se o dinheiro vai comprar transformação real ou apenas mais do mesmo, mais rápido.


Fonte original: ElevenLabs hits 22bn as financial firms adopt AI agents — FinTech Global, 7 de outubro de 2026; e Spoiler Alert: The Future of Work Is Already Here — SAP News, por Dra. Autumn D. Krauss, 7 de outubro de 2026.

Fontes primárias e complementares: ElevenLabs reaches 22bn valuation after employee tender — ElevenLabs, 30 de setembro de 2026; ElevenLabs raises 500M Series D at 11B valuation — ElevenLabs, fevereiro de 2026; ElevenLabs’ valuation doubles to 22BN — Tech.eu, por John Reynolds, 30 de setembro de 2026; Hyperscalers Hit 700 Billion in 2026 AI Spending Plans — Yahoo Finance/24-7 Wall St., 1º de maio de 2026; AI boom: Big Tech capital expenditures now seen topping 1 trillion in 2027 — CNBC, 30 de abril de 2026; MIT report: 95% of generative AI pilots at companies are failing — Fortune, por Sheryl Estrada, 18 de agosto de 2025; McKinsey says enterprise AI is finally ‘on the road to ROI’ — The Register, por Brandon Vigliarolo, 25 de agosto de 2026; Klarna plans to hire humans again — Fortune, por Irina Ivanova, 9 de maio de 2025; 2026 Work Trend Index — Agents, human agency, and the opportunity for every organization — Microsoft WorkLab, 5 de maio de 2026; Nobel Laureate Daron Acemoglu on ‘brainless’ AI discourse — Fortune, por Nick Lichtenberg, 21 de junho de 2026; SAP to Acquire TechWolf — SAP News, 6 de outubro de 2026; AI ‘voice cloning’ scams are on the rise — CNN, 29 de maio de 2026; Senator Hassan demands answers from ElevenLabs and others — Axios, por Sam Sabin, 16 de abril de 2026; Surveys show lack of consumer trust in banks’ AI — American Banker, por Miriam Cross; The AI Bubble Is No Ordinary Bubble — The Atlantic, julho de 2026.

Imagem: Fachada da Bolsa de Valores de Nova York (New York Stock Exchange), detalhe do frontão com esculturas e a bandeira dos Estados Unidos, por David Blaikie, via Flickr e Openverse, licenciada sob CC BY 2.0.


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