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Escassez de memória derruba embarques de PCs em 20% — e a conta é dos data centers de IA

Os embarques mundiais de PCs caíram 20,1% entre julho e setembro de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior — de 78,5 milhões para 62,7 milhões de unidades, uma perda de 15,8 milhões de computadores, segundo levantamento preliminar da IDC (International Data Corporation), consultoria que acompanha o mercado de tecnologia. É o segundo recuo consecutivo: no segundo trimestre, a queda havia sido de 3,8%. E há um detalhe que torna o número ainda mais grave: o terceiro trimestre é tradicionalmente o mais forte do ano, mas desta vez os embarques encolheram 9,1% em relação ao segundo trimestre, invertendo a sazonalidade.

A explicação tem, em grande parte, um endereço conhecido: os data centers de inteligência artificial. Os hiperescaladores — as gigantes da nuvem, como Microsoft, Google e Amazon — despejam somas vultosas na memória HBM, a variedade ultrarrápida que alimenta as placas de IA, e consomem a capacidade fabril que antes abastecia PCs e notebooks. O efeito cascata já aparecia nos preços de memória subindo até cinco vezes em doze meses. Agora, ele chegou às prateleiras e às montadoras.

A queda em números

Os dados preliminares do IDC Quarterly Personal Computing Device Tracker mostram que a dor não foi distribuída por igual:

Fabricante Embarques no 3T26 Fatia do mercado vs. mesmo trimestre de 2025
Lenovo 14,9 milhões 23,8% -22,6%
HP 10,3 milhões 16,5% -30,9%
Dell 7,6 milhões 12,1% -25,0%
Apple 5,9 milhões 9,5% -11,3%
ASUS 5,5 milhões 8,7% -8,6%
Outros 18,4 milhões 29,4% -14,0%
Total 62,7 milhões 100% -20,1%

Os três maiores fabricantes — Lenovo, HP e Dell — caíram mais rápido que o mercado e juntos embarcaram 11,6 milhões de unidades a menos que no mesmo trimestre de 2025, cedendo 4,2 pontos porcentuais de participação — a fatia dos três caiu de 56,6% para 52,4% do mercado —, segundo o levantamento da IDC. No sentido oposto, Apple e ASUS perderam menos que a média e terminaram o trimestre com fatias maiores do bolo: 9,5% e 8,7%, respectivamente.

O efeito estoque: o trimestre emprestado

Parte da queda é autoinfligida — e calculada. Nos primeiros meses do ano, fabricantes e canais — lojas e distribuidores — anteciparam compras para driblar os reajustes de preço que vinham se anunciando, inflando os embarques do primeiro semestre e esvaziando a demanda do segundo. O fenômeno tem nome na indústria: pull-in, a antecipação de pedidos.

“O que vemos é o resultado de uma forte antecipação de compras no primeiro semestre. Fabricantes e canais acumularam estoque no início do ano para se antecipar aos reajustes, e isso desregulou a sazonalidade habitual, em que o terceiro trimestre costuma ser maior que o segundo”, disse Jitesh Ubrani, diretor de pesquisa de dispositivos de consumo da IDC, no comunicado oficial.

Segundo Ubrani, os canais agora temem carregar estoque demais num mercado em que os preços altos sufocam a demanda — o que pode gerar promoções e um alívio de curto prazo para o consumidor, mas nada próximo dos preços de um ano atrás. “Os preços vão continuar elevados. Com as condições macroeconômicas piorando, o risco é que a perspectiva para os próximos trimestres piore antes de melhorar”, completou o analista.

A memória virou item de luxo

No centro da crise está a DRAM, o tipo de chip de memória que equipa PCs, celulares e servidores. Dados do PCPartPicker compilados pelo TechPowerUp mostram o choque: em doze meses, um kit com dois módulos de 16 GB de DDR5 — o padrão de memória dos PCs atuais — subiu 372% nos Estados Unidos, e um de dois módulos de 32 GB, 485%. Um kit de 64 GB de alto desempenho que custava 222 dólares passou a ser vendido por 1.272 dólares — quase seis vezes o preço original. Até a DDR4, tecnologia antiga, acumula altas de 120% a 177%.

O Tom’s Hardware registra o símbolo dessa época: kits de 128 GB de DDR5 chegaram a custar 3.399 dólares — mais caro do que muitos PCs completos à venda. A reação da indústria também já veio: a Micron anunciou em dezembro de 2025 o fim da Crucial, sua marca de memória e SSDs (as unidades de armazenamento) para o consumidor final, após 29 anos de história. Em comunicado, a empresa disse que o crescimento da demanda por data centers levou a um surto de demanda por memória e armazenamento, e que sair do varejo permitiria atender os clientes estratégicos. E mais: a capacidade de produção de 2027 dos três maiores fabricantes — Samsung, SK hynix e Micron — já está vendida, segundo reportagem anterior do TechPowerUp.

A IDC projeta que os embarques de PCs terminem 2026 com queda de 11,3% no acumulado do ano, com o quarto trimestre podendo registrar recuos de até 20%, e não espera alívio na escassez de memória antes do fim de 2027. Para a entidade, o preço médio dos PCs deve subir 17% em 2026 — e mesmo com a expansão da capacidade nos próximos dois anos, os preços dificilmente voltarão aos patamares de 2025.

Quando os preços caem? Depende de quem você pergunta

É aqui que a indústria se divide. De um lado, os fabricantes de memória pintam um horizonte longo. O CEO da Micron, Sanjay Mehrotra, disse que o suprimento estará mais apertado em 2027 e 2028 do que em 2026. O CEO da SK hynix, Kwak Noh-Jung, avaliou que 2027 será o pico da escassez e que a demanda seguirá acima da oferta depois de 2030. E o presidente do conselho da Adata, Chen Li-bai, apostou em preços elevados por cerca de uma década, segundo o Mashable. Uma análise da Omdia, outra consultoria de mercado, citada pelo Tom’s Hardware estima que o mercado americano de PCs não deve se recuperar antes de 2029.

Do outro lado, um dissidente de peso: Jason Chen, presidente do conselho e CEO da Acer. Em entrevista ao DigiTimes, ele defendeu que o pânico com a escassez é, em parte, um exagero (“hype”) para proteger as margens dos fabricantes de memória, que hoje operam com lucros fora do comum. Segundo a avaliação dele, a oferta de DDR4 e de DDR5 convencional já acompanhou a demanda, e a escassez real estaria confinada aos componentes de ponta — módulos DDR5 velozes de última geração, como o LPDDR5X-9600, e CPUs de nicho como as N1 e N1X da Nvidia. Para Chen, os preços médios dos PCs ainda sobem de 5% a 20% no fim de 2026, atingem o pico por volta do meio de 2027 e começam a cair no segundo semestre, quando a capacidade chinesa entrar em escala.

A China, aliás, pode reescrever o final dessa história. A Nikkei Asia revelou que HP, ASUS e Acer já adotam pequenas quantidades de chips da fabricante chinesa de memória ChangXin (CXMT) — com cuidado para não irritar os fornecedores tradicionais. Segundo o Mashable, a Apple teria avaliado a empresa como fornecedora, apesar de ela constar da lista negra do Pentágono. O eeNews Europe faz a ressalva necessária: a leitura de Chen sobre o comportamento dos fornecedores é interpretação dele, não fato estabelecido.

O preço da espera: jogos, nuvem e efeitos colaterais

A espera também paralisa quem compra por prazer. A consultoria Jon Peddie Research estima que o mercado mundial de hardware para jogos de PC fique praticamente estagnado em 2026, em torno de 56 bilhões de dólares, por dois motivos que se reforçam: os jogadores estão adiando a troca de máquina e os preços dos componentes estão altos por causa da demanda dos data centers de IA. O analista Ted Pollak projeta que a demanda represada deve virar picos de mercado entre 2027 e 2029, quando os preços de componentes esfriarem. O mesmo levantamento registrou um marco curioso: pela primeira vez em mais de vinte anos de acompanhamento, sistemas com os chips Apple M5 Max e M5 Ultra — integrados, sem placa de vídeo dedicada — entraram na faixa intermediária de desempenho para jogos.

Há ainda efeitos colaterais em locais improváveis. Em meio à escassez de armazenamento que atinge a indústria, o Microsoft 365 reduziu a capacidade de contas compartilhadas: a partir de 10 de dezembro, contas novas do OneDrive ficam limitadas a 100 GB, e sites novos do SharePoint, a 100 GB — mais um reflexo da fila de pedidos que se estende da memória ao SSD corporativo.

O gargalo alcança até os servidores que sustentam a própria IA. Segundo a análise da Futurum Group, a Arm descreve os embarques de seu AGI CPU — o primeiro processador de servidor que a empresa vende com o próprio nome, com a Meta como parceira de projeto e a OpenAI entre os primeiros clientes — como limitados pelo suprimento, e projeta 15 bilhões de dólares de receita anual com a família até 2031. No dia 7 de outubro, a Lattice Semiconductor anunciou uma parceria para equipar essas plataformas com seus FPGAs — chips reprogramáveis de gerenciamento — e com o firmware da AMI, o software básico que faz o servidor ligar e ser controlado, com demonstração no OCP Global Summit 2026.

O que esperar

Para quem planeja comprar um computador, a leitura no curto prazo é convergente — IDC, Omdia e até o otimista Chen concordam: os preços sobem antes de cair. A diferença está no calendário do alívio — fim de 2027 para os mais confiantes, 2029 ou depois para os mais céticos. Enquanto isso, promoções pontuais podem surgir dos estoques inchados dos canais, e 60% dos jogadores de PC ouvidos em enquete do Tom’s Hardware dizem não ter planos de montar um computador novo nos próximos dois anos. Uma ressalva, porém, serve para os dois lados do embate: a maioria das vozes que projeta escassez longa vende memória — e o próprio Chen fabrica PCs, que se beneficiariam de preços menores.

Para quem busca se orientar nesse cenário de rápida evolução, nossa análise comparativa dos melhores modelos de IA acompanha e avalia as principais opções disponíveis no mercado.

A ironia final: a mesma IA que encareceu o PC de casa fez da memória — o componente que mais subiu de preço — o item indispensável para quem quer rodar modelos no próprio computador, sem depender da nuvem.


Fonte original: PC shipments tumble over 20% in 3Q26 as chip shortages bite — top three PC vendors ship 11.6 million fewer units year-over-year - tomshardware.com, por Jowi Morales.

Fonte dos dados: PC Market Woes Continue: Shipments Fall 20.1% in Q3 2026 as Pull-In Hangover and Supply Constraints Bite - idc.com, IDC, 8 de outubro de 2026.

Fontes complementares: Memory Prices Break a Record With Nearly 500% Surge in the Last 12 Months e PC Shipments Drop 20.1% in Q3 2026, HP and Dell Hit Hardest - techpowerup.com; PC Market Enters Volatile Territory as Memory Shortage Persists Through 2027 - idc.com; Micron Announces Exit from Crucial Consumer Business - investors.micron.com; Acer CEO says PC prices could drop in 2027 - Mashable via Yahoo Finance, por Chance Townsend; Acer sees PC prices falling in late 2027 - eenewseurope.com, por Brian Tristam Williams; HP, Asus and Acer begin using CXMT chips amid memory shortage - Nikkei Asia, por Lauly Li e Cheng Ting-Fang; JPR releases latest PC Gaming Hardware model - jonpeddie.com, por Ted Pollak; Lattice Brings FPGAs and AMI Firmware to Arm’s 15 Billion Dollar AGI CPU Server Push - futurumgroup.com, por Brendan Burke.

Imagem: Módulos de memória RAM DDR5 enfileirados ao lado de placa-mãe de servidor e mouse gamer, por Yuriy Vertikov, via Unsplash, licenciada sob a Unsplash License.


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