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Do substrato ao qubit: a escassez de computação virou o produto da nuvem

Quer comprar uma placa de vídeo? Prepare-se para a fila — e para o preço. Em outubro, as placas vendiam em média 44% acima do preço recomendado de fábrica em dez países (excluída a RTX 5090), segundo o levantamento do Hardware Unboxed compilado pelo Fudzilla; nos Estados Unidos, o sobrepreço médio chegava a 57,6%. No mesmo mês, a Intel avisou os investidores que a oferta de processadores deve seguir apertada até 2028 (release de resultados; análise da Futurum Group). A onda de escassez que começou na memória — derrubando embarques de PCs na esteira do post que publicamos no início do mês — agora sobe pela pilha inteira do hardware, do substrato ao qubit. Traduzindo: esperar custa caro.

A fila, aliás, ganhou um capítulo novo. A nuvem, que transformou a falta de máquinas em mercadoria negociável, também vende acesso à computação quântica — que, na mesma semana, deu uma mostra do que consegue e do que ainda não consegue: um processador comercial emaranhou seus 54 qubits — as unidades básicas de informação de um computador quântico — ao mesmo tempo, mas passou raspando no limiar que separa o sinal do ruído.

Do lado clássico, a novidade da semana veio do resultado trimestral da Intel, divulgado em 29 de outubro. A empresa reportou 16,5 bilhões de dólares de receita — alta de 21% em relação a um ano antes —, dos quais 7,3 bilhões só na divisão de Data Center e IA (alta de quase 80% em um ano). E avisou que o estrago não está no silício: um ingrediente quase invisível está travando a linha de montagem, o substrato avançado — a placa fina, feita com resinas orgânicas (da química, não do cardápio), sobre a qual os pedaços do processador são montados e interligados.

“Mesmo acelerando rapidamente a produção de wafers Intel 3, uma escassez industrial de substratos orgânicos avançados para nosso empacotamento EMIB também afeta nossa capacidade de ampliar a produção”, disse o CEO Lip-Bu Tan, segundo a análise da Futurum Group, de Brendan Burke. O EMIB citado por Tan é a técnica da Intel para ligar os pedaços do processador dentro do pacote — o empacotamento, etapa em que o chip é montado em sua carcaça — e é justamente ela que depende do substrato escasso. A Intel lista o aperto ao lado de outros dois fatores de capacidade — o rendimento da linha Intel 3 e o desligamento da fábrica Fab 28, em Israel —, mas é dos substratos que veio o alerta para a indústria inteira. O CFO Dave Zinsner completou: a empresa já garantiu 40% mais capacidade de substrato, mas a maior parte só chega no segundo semestre de 2027 — e a indústria deve permanecer com oferta restrita “durante 2027 e até 2028”.

O gargalo mudou de lugar — e de tamanho

Na fábrica de chips, o insumo básico é o wafer — a pastilha, no português técnico —, o disco de silício de onde saem os circuitos. Durante décadas, o gargalo era produzir esse disco. Agora, segundo a Futurum, o elo mais lento está um andar abaixo do chip: no substrato, a base sobre a qual os pedaços do processador são montados. E o ingrediente que falta vem de onde ninguém esperava: o filme ABF (Ajinomoto Build-up Film) é fabricado pela Ajinomoto — sim, a mesma empresa do tempero de missoshiru —, que controla mais de 95% desse mercado, segundo a Futurum. O silício está pronto; falta a base que permite montá-lo.

As razões do aperto são matemáticas. Processadores de data center que ocupavam de 300 a 400 milímetros quadrados de silício agora chegam a cerca de 1.600 milímetros quadrados, montados como conjuntos de vários chips — os chiplets — sobre substratos cada vez maiores e com mais camadas. E GPU (o processador gráfico) e CPU (o processador central) disputam o mesmo substrato: compilações do Tom’s Hardware citadas pela Futurum projetam um déficit de cerca de 21% entre oferta e demanda de substratos em 2027 — e de mais de 40% em 2028. O aperto não é leitura isolada: o DigiTimes, de Taipei, já apontava em julho que a demanda da IA empurraria o mercado global de substratos ABF para uma escassez com pressão até 2028 (DigiTimes). O resultado é uma inversão histórica de poder, como resume a consultoria: quem fabrica o substrato dita as condições — os vendedores de CPU agora negociam para conseguir suprimento.

E o mercado cresce por baixo do aperto. A Futurum projeta que o mercado de CPUs de servidor salte dos cerca de 40 bilhões de dólares que, na conta do próprio CEO da Intel, o setor movimenta hoje para 245,9 bilhões de dólares em 2030 — quase um quarto de trilhão, cerca de seis vezes o tamanho atual.

Por que a IA agente multiplica a fome de CPUs

A reviravolta está na matemática do data center. Na era do chatbot, a proporção típica era de um processador para cada quatro a oito GPUs. Na era dos agentes de IA, programas que agem sozinhos encadeando ferramentas, a conta explode: as verificações de canal da Futurum — sondagens junto a compradores e integradores — encontram implantações pedindo desde um processador para cada duas GPUs até cem processadores por GPU — cenários distintos de carga, não uma média. O motivo: agentes rodam em espaços isolados de processamento — as sandboxes do jargão, ambientes separados para que uma tarefa não interfira na outra —, e esses espaços se multiplicam conforme mais ferramentas e tarefas rodam em paralelo. Mais processadores por GPU significam mais substrato por servidor — e é assim que o gargalo do andar de baixo vira falta de computação comum, a de processador, e não só a de GPU. O aperto alcança, inclusive, quem nem fabrica chip: as empresas que montam os pacotes, as fabricantes de memória e as testadoras.

O efeito aparece primeiro no varejo. O levantamento do Hardware Unboxed mostra que as placas de vídeo subiram 35% em três meses — altas de 15% em agosto, 7% em setembro e 11% em outubro, medidas com base na placa mais barata efetivamente em estoque em dez países, incluindo o Brasil. O modelo mais caro da Nvidia, a GeForce RTX 5090, subiu 32% só em outubro: nos Estados Unidos, a mais barata disponível saltou de 6.890 para 9.400 dólares — quase cinco vezes o preço recomendado de lançamento, de 1.999 dólares. Entre os países medidos, o Canadá tem o sobrepreço médio mais alto, 58,3%. Ressalva do próprio levantamento: a pesquisa não isola causas — não dá para separar quanto da alta vem da demanda da IA, da oferta restrita de componentes ou de decisões de preço do varejo.

E não acabou: um vazamento da cadeia de suprimento reportado pelo PC Guide indica que a AMD deve reajustar em novembro os kits de placa mais memória vendidos às fabricantes parceiras que montam as placas — a segunda alta em dois meses. Segundo o vazamento, o motivo é a memória de vídeo das placas (chamada de DDR6 no documento) encarecendo entre 8% e 10% no trimestre. O efeito no balcão: a Radeon RX 9070 XT, lançada em março de 2025 por 599 dólares, hoje aparece na Amazon majoritariamente acima de 900 dólares, com alguns modelos cruzando a marca de 1.000 dólares. Uma ressalva importante: o vazamento não é anúncio oficial, e a AMD não confirmou. Antes da Black Friday, o Hardware Unboxed avisou que os descontos deste ano podem ser dos piores dos últimos anos — não espere alívio nas gôndolas.

A conta chegou à nuvem — e a capacidade ociosa virou mercado

Se o hardware encarece, a resposta aparece no modelo de negócio: transformar o que sobra em produto. A SF Compute, operadora especializada em alugar conjuntos de servidores com GPUs — os clusters do setor —, parte de uma ideia simples: quem aluga pode revender as horas que não usar — de uma única hora até o restante da reserva — para outro cliente. Como prova de que há mercado para isso, a empresa anunciou em setembro a venda de 245 milhões de dólares em capacidade de computação — um quarto de bilhão — a uma empresa de IA líder: dois contratos de 36 meses, de 122,5 milhões de dólares cada, sobre dois conjuntos dedicados de GPUs Blackwell B300, da Nvidia. A cobertura recente do Emergent destaca a outra metade da estratégia: reduzir os depósitos antecipados que travam quem quer alugar GPUs — no mercado, adiantamentos chegam a 30% a 50% do contrato, segundo o veículo.

A tese muda as regras na prática: computação como mercado, não como contrato. A capacidade ociosa deixa de ser prejuízo e vira renda — num mundo em que nenhuma GPU nova sobra, o que muda de mãos é a computação que alguém já paga e não usa. Para quem escolhe ferramentas de IA num mercado em que até o processamento vira leilão, nossa análise comparativa dos melhores modelos de IA acompanha e avalia as principais opções disponíveis.

Quântica na nuvem: 54 qubits em ação — e ainda longe do uso prático

Um processador quântico comercial emaranhou os 54 qubits que tem no chip — todos ao mesmo tempo —, mas por uma margem estreita. E, antes que a pergunta surja: isso não resolve a fila das GPUs nem substitui o data center que treina IA. O que o resultado, anunciado em 29 de outubro, mostra é a máquina que já existe entregando mais do que entregava — o mesmo movimento do resto desta reportagem.

O processador é o Emerald, da finlandesa IQM Quantum Computers, acessível pela nuvem: a empresa anunciou que preparou no chip inteiro, de uma vez, o estado GHZ (Greenberger-Horne-Zeilinger) — um teste em que as medições de todos os qubits precisam ficar fortemente correlacionadas, como se formassem um só sistema (release da IQM; cobertura do Quantum Computing Report). Até então, segundo a própria IQM, quem rodava um algoritmo comparável no Emerald conseguia rodar com confiabilidade em cerca de 30 qubits — o resultado não é um chip novo, é o mesmo chip entregando mais a quem já paga por ele. A IQM, fundada em 2018 em Espoo, na Finlândia, abriu capital na Nasdaq em julho (anúncio da empresa) e vende tanto máquinas instaladas no cliente quanto acesso pela nuvem.

A medida que importa é a fidelidade — o quanto o resultado real se parece com o estado quântico esperado. A IQM mediu 0,515 com 40 qubits, sem mitigação de erro de leitura, e 0,516 com os 54 qubits, com a mitigação aplicada — uma correção feita depois da medição, que não conserta o erro quântico em si. O número parece próximo de 50%, e é: o que conta é o limiar. 0,500 é a fronteira que separa o emaranhamento genuíno do ruído clássico; abaixo dela, o resultado pode ser explicado por um estado clássico. O 0,516 passa — por 0,016, uma margem que o próprio Quantum Computing Report destaca como medida do desafio que falta: manter a coerência do chip inteiro vai exigir portas mais rápidas e calibração contínua, para que a interferência entre qubits vizinhos não degrade a amostragem dos algoritmos. “Emaranhar o chip inteiro significa que cada qubit e cada conexão entre eles têm de funcionar corretamente no mesmo circuito”, disse o CTO Craig Ciesla, no release. “Chegar lá foi questão de ser mais inteligente na preparação do estado, escolhendo a ordem das portas para manter o tempo ocioso no mínimo.”

Nos dois lados desta reportagem, agentes de IA entram na história: no data center, multiplicam a demanda por CPUs; na IQM, viram ferramenta para calibrar a máquina. O resultado foi viabilizado por uma rotina automática de preparação de estado, que escolhe as operações entre pares de qubits — as portas CZ nativas do processador — equilibrando a fidelidade de cada porta com o tempo que os demais qubits ficam ociosos; somada ao desacoplamento dinâmico, uma sequência de pulsos de controle que protege os qubits das perturbações do ambiente, a empresa diz ter cortado a taxa de erro das operações em até 50% (release). O trabalho levou cerca de um ano de ajustes de hardware e calibração — e é aí que o gargalo quântico se parece com o clássico: não é o silício, é a mão de obra especializada que calibra a máquina. Em abril, a IQM já havia apresentado uma calibração “agêntica” com os modelos abertos NVIDIA Ising, justamente para automatizar o ajuste dos qubits e atacar a escassez global de engenheiros quânticos (QCR).

Só que os 54 qubits do Emerald são físicos — a unidade bruta da máquina, e um número ainda modesto para um computador quântico de uso geral. O que a indústria chama de “qubit lógico” é outra categoria: um qubit codificado em vários qubits físicos, capaz de corrigir erros durante a computação — os dois números medem coisas diferentes e não formam um ranking. Em julho, segundo o anúncio da IBM, a empresa e a Universidade de Chicago rodaram um circuito com 70 qubits lógicos e 2.415 operações lógicas de dois qubits, com taxa de erro lógica dez vezes menor que a física (IBM) — um dos maiores resultados públicos de computação lógica até aqui, e o tipo de número que a corrida quântica usa como referência. O que a IQM vende, por ora, é acesso à máquina que existe — e o argumento comercial é que o cliente pode usar o chip inteiro, não um pedaço. É o mesmo produto da fila clássica: capacidade. Só que, no caso quântico, a capacidade ainda é experimental.

Quem ganha e quem perde na fila

De volta à fila clássica: enquanto ela anda, a disputa é por alocação. A Futurum estima que, no quarto trimestre de 2025 — o retrato mais recente disponível —, a Intel ficasse com 45,3% da receita de CPUs de data center, a AMD com 29,7% e os projetos baseados na arquitetura Arm — a mesma dominante em celulares — com os 25% restantes. E avalia que, enquanto a Intel não embarca, cada trimestre vago é preenchido pelos processadores EPYC da AMD, produzidos pela taiwanesa TSMC — a maior fundição de chips do mundo, a fábrica que produz chips desenhados por outras empresas —, disputados ainda pelos processadores Vera, da Nvidia, e AGI CPU, da britânica Arm, que brigam pela mesma capacidade de produção.

As gigantes da nuvem, por sua vez, escapam da fila desenhando CPU sob medida — Graviton (Amazon), Axion (Google), Cobalt (Microsoft) — e negociando suprimento diretamente; a Meta comprou a startup Rivos para perseguir o mesmo caminho com RISC-V, um conjunto de instruções aberto, livre de royalties de licença. Quem perde, por ora, é quem compra pronto: o integrador, o fabricante de PCs e, no fim da fila, o consumidor — que reencontra o aperto nas gôndolas e nas faturas da nuvem.

Do lado dos fornecedores, quem vende o que falta amassa poder. A Ajinomoto elevou os preços do filme ABF em cerca de 30% no trimestre; a Ibiden, fabricante japonesa de substratos, gasta 3,1 bilhões de dólares para multiplicar por 2,8 a capacidade de 2024 até 2028; e a taiwanesa Unimicron elevou o investimento anual a um recorde de 1,07 bilhão de dólares — números todos da compilação da Futurum. Mais abaixo na fila, as montadoras de pacotes, como ASE e Amkor, e as testadoras, como Advantest e Teradyne, cobram um pedágio a cada chiplet adicionado.

Mas e se a festa acabar? O aviso dos céticos

Há precedente de sobra para ceticismo. No capítulo da memória, o CEO da Acer, Jason Chen, classificou parte do pânico de preços como “hype” a serviço das margens dos fabricantes, como registramos no início do mês — e a mesma pergunta fica de pé para placas e substratos: quanto do preço de hoje é escassez física e quanto é margem? Há, ainda, um precedente histórico: a escassez de substratos de 2021 e 2022 terminou em excesso de oferta em 2023, quando a demanda de PCs despencou. O cenário de risco da própria Futurum é simétrico: se o software aprender a concentrar mais agentes por CPU, a demanda pode ser menor exatamente quando a capacidade nova da Ibiden chegar, em 2028 — e quem travou contratos longos a preços de pico paga a conta.

No quântico, o ceticismo tem outro nome: 0,516 não é um produto, é um experimento que passou raspando no limiar. A IQM diz que o resultado está entre os mais fortes já reportados para uma máquina comercial — uma alegação da empresa, não um consenso —, e a distância entre emaranhar 54 qubits e rodar um algoritmo útil com correção de erros continua sendo a distância entre um protótipo e uma indústria. No mercado de chips, a escassez de hoje é o estoque de amanhã: a fila de hoje financiará a folga de depois. Na computação quântica, a capacidade já pode ser alugada — mas ainda não entrega uma máquina de uso geral.


Fonte original: Intel’s Substrate Shortage Moves the CPU Supply Chain Bottleneck Into the Package — futurumgroup.com, por Brendan Burke (Research Director), 30 de outubro de 2026. Conteúdo declarado como gerado com assistência de IA pela própria Futurum.

Fontes complementares: GPU prices go berserk with 35 per cent surge in three months — fudzilla.com, por Nick Farrell, 30 de outubro de 2026 (levantamento do Hardware Unboxed sobre dez países); AMD GPU prices expected to rise for the second time in two months, says leak, as RX 9070 XT nears 1,000 dollars — pcguide.com, por Jack Goodall, 30 de outubro de 2026 (vazamento do ChannelGate, não confirmado pela AMD); San Francisco Compute sells 245 million dollars worth of compute — sfcompute.com, por Evan Conrad e Eric Park, 10 de setembro de 2026; SF Compute Secures 245-million-dollar AI Lab Deal, Cuts GPU Deposits — emergent.sh, por Bhavyadeep, 30 de outubro de 2026; Intel Reports Third-Quarter 2026 Financial Results — intc.com, 29 de outubro de 2026; IQM Demonstrates Entanglement Across a Complete 54-Qubit Processor, Bringing Full-Chip Performance to Cloud Users — iqm.tech, 29 de outubro de 2026; IQM Verifies Full-Chip Entanglement Across 54-Qubit Emerald Superconducting Processor — quantumcomputingreport.com, 30 de outubro de 2026; IQM Automates Quantum Calibration with NVIDIA Ising to Support Enterprise Adoption — quantumcomputingreport.com, 15 de abril de 2026; IQM Quantum Computers Becomes First European Quantum Computing Company Listed on a Major U.S. Exchange — iqm.tech, 2 de julho de 2026; IBM and The University of Chicago Demonstrate Quantum Advantage, Establishing Trusted Quantum Computation on Logical Circuits — newsroom.ibm.com, 30 de julho de 2026; AI demand pushes global ABF substrate market into shortage, with pressure seen through 2028 — digitimes.com, por Flora Wang, 14 de julho de 2026 (manchete verificada; texto integral atrás de paywall).

Imagem: Corredor de racks em data center (“Racks Amravati Data Center”), por HatkarKarthik (upload de PiDatacenters), via Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY-SA 4.0.


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