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ENISA Threat Landscape 2026: ransomware e exploração de vulnerabilidades no topo — e a IA entrando em toda a kill chain

A ENISA, a agência da União Europeia para a cibersegurança, publicou em setembro de 2026 a edição 2026 do seu ENISA Threat Landscape (ETL). O relatório tem 101 páginas, classificação TLP:CLEAR e licença CC BY 4.0 — ou seja, pode ser lido e reaproveitado por qualquer um, o que é raro e bem-vindo num documento desse tipo. A base é concreta: 8 257 incidentes coletados e analisados, a partir de fontes abertas e de informação anonimizada enviada por Estados-Membros e por participantes do ENISA Cyber Partnership Programme.

Para Juhan Lepassaar, diretor executivo da ENISA, o valor do documento está menos na lista de ameaças e mais na leitura das dependências entre elas: “A análise destaca como as ameaças se tornam mais interconectadas e como os grupos de ameaça espalham o seu impacto pelo mapa mais amplo de serviços digitais e infraestruturas. Ter consciência dessas dinâmicas subjacentes é fundamental se queremos implementar as soluções certas e manter um alto nível de resiliência em nossa economia digital.”

Vale dizer de saída o que o próprio documento avisa: o período de análise passou a ser o ano-calendário, cobrindo 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025. Como a edição anterior usava outro recorte, há seis meses de sobreposição entre os dois relatórios. A ENISA também ampliou o número de atividades criminosas rastreadas — o que mexeu nos números absolutos, mas, segundo a agência, “não alterou substancialmente as tendências e rankings” da edição anterior. Quem comparar as duas edições precisa ter isso em mente.

O retrato geral: muito ruído, pouco impacto — e uma exceção

Os dois tipos de incidente mais registrados seguem sendo os mesmos: DDoS com 51,3% e acesso não autorizado com 39,5%. Entre as técnicas de engenharia social, o phishing continua folgado na frente, com 77,8%, seguido por spam malicioso (malspam), com 13%.

Mas o dado mais interessante do capítulo de visão geral é uma assimetria que o relatório não esconde. Olhando pela motivação dos ataques, o cenário se inverte:

Objetivo avaliado Participação nos incidentes
Ideológico 57,3%
Financeiro 29,3%
Ciberespionagem cerca de 6%

A atividade ideológica é a que mais aparece — e é justamente a que produz menos dano. O relatório classifica os DDoS como ataques de baixo impacto, moldados por desenvolvimentos geopolíticos e declarações políticas. A ENISA vai além e cita o seu próprio relatório de investimentos em NIS: representantes de organizações europeias de setores de alta criticidade descrevem DDoS como “ruído”, enquanto o ransomware domina as preocupações organizacionais.

“Atividades com motivação financeira (29,3% de todos os incidentes registrados), em especial o ransomware, permaneceram os incidentes de maior impacto no curto prazo”, resume o documento. E acrescenta o outro lado: embora represente menos casos, a ciberespionagem é a ameaça estratégica mais relevante no médio e longo prazo. Há ainda um detalhe metodológico que explica boa parte do “ruído”: nos registros de hacktivismo, apenas 23,8% das reivindicações de ataque foram confirmadas por verificações independentes de disponibilidade. Ou seja, mais de três quartos das alegações públicas não se sustentam — muita coisa é operação de informação, não de indisponibilidade real.

Setores: administração pública na frente, e a saúde só aparece em uma das fontes

O ranking dos setores mais visados na UE é estável em relação ao ano anterior:

Setor Participação
Administração pública 31,8%
Serviços empresariais 8,5%
Transporte 8%
Manufatura 6,9%
Finanças / bancos 5,6%

Um número que dimensiona a relevância da regulação: entidades essenciais e importantes somam cerca de 73% do total de eventos registrados, o que, para a ENISA, “confirma a pertinência da abordagem da NIS2”. No setor de administração pública, a composição chama atenção — 81,8% dos incidentes são DDoS ideológicos, com impacto normalmente limitado a indisponibilidade temporária de portais. Os grupos mais ativos ali são o pró-Rússia NoName057(16), o Dark Storm Team e o Mr. Hamza.

O relatório faz uma comparação que merece leitura cuidadosa. Quando se olha o que os Estados-Membros reportaram sob a NIS2 em 2025 — 1 954 eventos até 14 de julho de 2026, dos quais 941 por “ações maliciosas”, com cerca de 50% sem causa-raiz identificada —, o top 5 muda de figura: administração pública, saúde, infraestrutura digital, bancos e transporte. Saúde e infraestrutura digital não aparecem no top 5 da coleta por fontes abertas. A explicação da ENISA é honesta: escopos, limiares e condições de reporte diferentes. É um bom lembrete de que todo ranking de ameaças é também um ranking de quem reporta.

Ransomware: a criptografia perdeu espaço para a extorsão

Se há uma seção que justifica a leitura integral do relatório, é a de ransomware. O dado que salta é a mudança de técnica: a exfiltração por canais de comando e controle (T1041, na taxonomia MITRE ATT&CK) aparece em 73,3% dos casos observados, enquanto a criptografia de dados para causar impacto (T1486) caiu para 13,7%.

O modelo de negócio mudou de “criptografar e cobrar” para “roubar e ameaçar publicar”. Isso tem consequência prática direta: uma estratégia de defesa centrada em backup e recuperação cobre apenas uma fração do risco. Se o dado já saiu, restaurar o sistema não resolve nada.

Entre os grupos, o top 5 na UE é Qilin, SafePay, Akira, INC Ransom e Hunters International. A dinâmica de cada um ao longo de 2025 foi irregular: Akira começou o ano em ritmo alto e desacelerou; Qilin registrou um pico significativo em outubro de 2025 (motivo não identificado); SafePay teve dois picos, 22 reivindicações em maio e 26 em dezembro; e o Hunters International saiu de uma única reivindicação em fevereiro para 52 em abril, comportamento que os analistas associaram a uma transição para extorsão pura, hipótese que não se confirmou depois.

O Qilin merece um parágrafo. O grupo passou a usar táticas de pressão psicológica, incluindo um recurso chamado “call lawyer”, que simula uma escalada jurídica contra a vítima. A ENISA é explícita sobre por que isso é particularmente eficaz na Europa: as obrigações de reporte de incidentes e as exigências do GDPR provavelmente funcionam como incentivo adicional para a vítima pagar. É um exemplo de manual de como o atacante adapta a extorsão ao ambiente regulatório em que a vítima vive — e uma inversão perversa: a norma que deveria proteger acaba se tornando pressão de negociação.

Dois outros vetores de pressão aparecem no documento. Em junho de 2025, variantes do EDRKillShifter começaram a ser embutidas em vários conjuntos de ransomware como serviço (Medusa, Qilin, DragonForce, Lynx, BlackSuit, RansomHub e INC), atacando a própria ferramenta de defesa. E 33 organizações europeias foram identificadas como vítimas repetidas — 44% delas por ransomware e 40% por violação de dados —, padrão que a ENISA associa provavelmente a falta de práticas de restauração após a resposta ao incidente.

Geograficamente, as reivindicações de ransomware na UE se concentram na Alemanha (26,5%), França (14,7%), Itália (13,6%), Espanha (12,2%) e Países Baixos (4,7%). Na ponta oposta, Lituânia (0,1%) e Estônia, Letônia, Bulgária e Eslováquia (0,3% cada). Por setor, a manufatura lidera com 25,2%, seguida por serviços empresariais (18,7%), administração pública (6,7%), saúde e o setor de produção e distribuição de alimentos.

Um caso ilustra o que “impacto” significa na prática: em setembro de 2025, o grupo Everest explorou acesso FTP indevido à infraestrutura do software de check-in vMUSE, da Collins Aerospace, e exfiltrou mais de 1,5 milhão de registros de passageiros e 3 637 registros de funcionários de companhias aéreas, provocando disrupção severa de voos e fechamento de aeroportos na Europa. Outro: o ataque de ransomware a um fornecedor de TI sueco afetou cerca de 200 municípios e autoridades regionais.

Vulnerabilidades: o volume cresceu 22% e o tempo encurtou

O capítulo 7 traz os números que conectam o relatório ao trabalho diário de qualquer equipe de infraestrutura:

  • Mais de 48 mil novas vulnerabilidades com identificador CVE publicadas em 2025 — aumento de 22% em relação ao ano anterior;
  • 71% dos CVEs documentados têm “rede” como vetor de ataque, o que sublinha o risco de exploração remota em sistemas expostos à internet;
  • distribuição por severidade CVSS: 9% críticas, 30% altas, 49% médias, 3% baixas e 9% sem pontuação;
  • 245 vulnerabilidades foram adicionadas ao catálogo de exploradas conhecidas (KEV) da CISA no período.

O relatório também registra que os atacantes seguem conseguindo armamentizar vulnerabilidades recém-divulgadas em janelas de tempo cada vez menores. Os alvos preferenciais são consistentes: infraestrutura corporativa, dispositivos de borda, ferramentas de desenvolvimento e dispositivos IoT e de borda legados sem correção, com D-Link, Zyxel, DASAN, Huawei, Realtek e Netgear citados nominalmente. Entre os casos europeus, aparecem FortiGate (CVE-2024-21762 e CVE-2024-55591, usadas pelo Qilin e pelo INC Ransom), Oracle E-Business Suite (CVE-2025-61882, explorada pelo Cl0p em esquema de extorsão pura) e React2Shell (CVE-2025-55182).

Há uma nota institucional relevante: desde novembro de 2025, a ENISA passou a operar como Root CVE, tornando-se ponto central de contato do programa CVE para autoridades nacionais e da UE — além de manter a EUVD, a base europeia de vulnerabilidades.

A IA: de assistente a fase da kill chain

O trecho mais citado da cobertura de imprensa é também o mais bem calibrado do documento. A avaliação central da ENISA é que, em 2025, os atacantes usaram principalmente ferramentas de IA de nível consumidor para ampliar habilidades que já tinham, e não para obter capacidades revolucionárias. “Os relatos de 2025 indicam que os atacantes usam principalmente ferramentas de IA de nível consumidor para ampliar habilidades existentes e adaptar vetores de ataque, e não para alcançar capacidades revolucionárias”, afirma o texto.

Só que a frase seguinte muda o tom: melhorias de modelo já estão acelerando a descoberta e a exploração de vulnerabilidades. E a projeção é forte:

“A ENISA avalia que a inteligência artificial muito provavelmente apoiará cada vez mais operações maliciosas […] é também provável que 2026 veja um número maior de fases da kill chain diretamente habilitadas por IA, com possível experimentação de provas de conceito com o humano fora do loop.”

Os exemplos concretos que sustentam o alerta são notáveis:

  • uma intrusão em nuvem assistida por IA teria alcançado acesso administrativo em 8 minutos;
  • o grupo de ransomware Gentlemen, ativo na UE, usou assistentes de codificação com IA para desenvolver o painel RaaS do grupo;
  • um site falso do Claude AI foi usado para distribuir malware — ou seja, a marca do próprio modelo virou isca;
  • a Anthropic relatou um grupo ligado a um Estado usando um sistema de IA agêntico numa campanha contra alvos internacionais não identificados, com um número limitado de compromissos bem-sucedidos;
  • a técnica “AI in the Middle” demonstrou que serviços de IA baseados na web podem ser abusados como proxies de comando e controle, dando furtividade e resiliência à infraestrutura do atacante;
  • surgiram métodos “industrializados” para garantir acesso confiável, barato e anonimizado a camadas premium de LLMs.

O relatório trata a IA também como alvo, e não só como ferramenta. Aplicações de IA com acesso a arquivos, credenciais, sessões de navegador ou ambientes de desenvolvimento viraram superfície de ataque — há registro de extensões maliciosas de assistentes de IA coletando históricos de conversa com LLMs. É a tese que o blog vem acompanhando de outros ângulos: a autonomia dos agentes transforma o próprio agente em vetor. Para quem busca se orientar nesse cenário de rápida evolução, nossa análise comparativa dos melhores modelos de IA acompanha e avalia as principais opções disponíveis no mercado — e ajuda a separar o que é capacidade real do que é marketing de segurança.

Vale registrar o número que talvez melhor traduza o ano de 2025, e que está no capítulo de manipulação de informação: 27% dos incidentes detectados pelo Serviço Europeu de Ação Externa (EEAS) envolveram TTPs relacionadas a IA — um salto de 41 para 147 casos, crescimento de aproximadamente 259% em um ano. Atores de FIMI russos e chineses, segundo o documento, “incorporaram plenamente” ferramentas de IA às suas operações para acelerar a produção de conteúdo e escalar a influência com menos recursos.

O capítulo também descreve um deslocamento estratégico: a Rússia tratou a manipulação de informação como instrumento central de poder estatal, redirecionando o foco dos Estados Unidos para a Europa. As campanhas de FIMI acompanharam ações híbridas escalatórias — incursões de drones, sabotagem e ataques a infraestrutura crítica na Polônia, Romênia, Lituânia e Estônia —, com o objetivo declarado de moldar a percepção pública e testar a resposta europeia. No total, o EEAS identificou 540 incidentes de FIMI no período, com 88% da atividade concentrada na plataforma X e 65% dos casos sem atribuição.

Do lado institucional, a Comissão Europeia publicou o Plano de Ação da UE para Cibersegurança e Inteligência Artificial, apoiado no AI Act, no Cyber Resilience Act, na NIS2 e no Cyber Solidarity Act. No mesmo dia, a ENISA divulgou a sua visão sobre cibersegurança na era da IA de fronteira. As peças regulatórias estão sendo encaixadas; o que ainda não existe é evidência de que a velocidade de defesa acompanhe a de exploração.

Engenharia social: quando o ataque abusa do processo legítimo

O capítulo sobre crime cibernético reforça uma mudança de padrão que vem sendo notada há alguns trimestres. A avaliação da ENISA é que as campanhas passaram a se apoiar cada vez mais em plataformas de comunicação confiáveis e em mecanismos legítimos de autenticação, em vez de explorar apenas falhas técnicas. Duas técnicas simbolizam esse deslocamento:

  • ClickFix — a vítima é induzida a “consertar” um problema e acaba executando comandos PowerShell que foram automaticamente copiados para a área de transferência. Foi prevalente em 2025, com a variante FileFix;
  • phishing de código de dispositivo (device code phishing) — o alvo é conduzido a um fluxo de autenticação legítimo para conceder acesso ao atacante. Campanhas em larga escala usaram Signal e WhatsApp para o contato inicial personalizado.

Há também números que dimensionam a industrialização da fraude. 77% dos domínios de phishing foram registrados especificamente para viabilizar ataques, e o total de domínios de phishing cresceu 38% em um ano. O Smishing Triad mantém cerca de 25 mil domínios ativos em qualquer janela de oito dias. O Tycoon 2FA foi o kit de phishing mais observado globalmente no período, operando como estrutura adversary-in-the-middle para burlar a autenticação multifator. A ENISA aponta responsabilidade explícita nessa cadeia: “registros e registradores têm responsabilidade significativa na detecção e mitigação desse abuso”.

Outro dado com consequência direta para quem trabalha em empresas europeias: a impersonação de autoridades fiscais e serviços digitais de governo foi observada em pelo menos nove Estados-Membros, com iscas previsíveis — restituição de imposto, avisos de pagamento em atraso, atualização de dados bancários. E há um caso que interessa especialmente ao blog: o Famous Chollima, ligado à Coreia do Norte, usa perfis falsos de LinkedIn gerados por IA e pacotes npm trojanizados para se infiltrar em empresas de defesa e governo — inclusive na UE —, com o golpe do “trabalhador de TI remoto”. O comprometimento de bibliotecas populares e pacotes npm, como a campanha Shai-Hulud, foi tamanho que a ENISA publicou em março de 2026 um aviso técnico sobre o uso seguro de gerenciadores de pacotes.

Rússia na frente, e a convergência que dificulta atribuição

O capítulo de ameaças ligadas a Estados traz o mapa da ciberespionagem contra a UE. Foram observados 52 conjuntos de intrusão distintos ativos no bloco. A distribuição por nexo de atribuição:

Nexo Participação
Rússia 47,6%
China 15,5%
Coreia do Norte (DPRK) 14,1%
Irã 9%
Não atribuídos cerca de 1,5%

Os alvos acompanham a geopolítica: administração pública (29,4%), manufatura (9,8%), infraestrutura digital (8,2%), sociedade civil (7%) e transporte (5,5%). O APT29 mirou entidades diplomáticas e ministérios de Relações Exteriores; o APT28 focou governos centrais e organizações de defesa; e o DragonFly executou em dezembro de 2025 um ataque coordenado contra o setor de energia, com uso de um wiper — um destruidor de dados, não um espião. Do lado chinês, o Salt Typhoon ganhou confirmação pública: em junho de 2025, a Viasat confirmou um comprometimento, e em agosto um aviso conjunto de autoridades europeias, americanas e britânicas descreveu operações sobrepostas ao grupo contra telecomunicações, governo, transporte e sistemas militares em mais de 80 países.

A conclusão do relatório, porém, aponta para um problema que nenhum ranking captura: os três ecossistemas — crime, hacktivismo e Estados — estão convergindo nas ferramentas e nos caminhos de acesso. O caso exemplar é o Moonstone Sleet, ligado a um Estado, usando o ransomware Qilin. “Os mesmos vetores de acesso, ferramentas e abordagens operacionais” tornam a imputação e a análise de ameaça mais difíceis, e o cenário, nas palavras da ENISA, “virtualmente inflado e disperso”. O grupo Babuk2 é outro sintoma: reivindicações fabricadas ou recicladas contra alvos militares e de defesa, funcionando parcialmente como corretor de acesso inicial.

O que fazer com isso

O relatório não traz um capítulo formal de recomendações, mas as orientações estão distribuídas e convergem para um ponto central: como os três tipos de ator usam os mesmos caminhos, mitigar o ator da moda vale menos do que fechar as fraquezas comuns. Destilando o documento em decisões:

  1. Cobrir exfiltração, não só criptografia. Com T1041 em 73,3% e T1486 em 13,7%, controle de dados egressos, segmentação e detecção de exfiltração passam à frente da obsessão com backup.
  2. Priorizar borda e legado. 71% dos CVEs têm vetor de rede; appliances de VPN e firewall e dispositivos IoT/edge sem correção continuam sendo o caminho mais barato para o atacante.
  3. Revisar a restauração, não só a resposta. As 33 organizações europeias revitimizadas apontam para falha na prática de reconstrução pós-incidente.
  4. Tratar o fator humano como processo, não como treinamento. ClickFix e device code phishing abusam de fluxos legítimos; a defesa precisa mudar o processo, não apenas avisar o usuário.
  5. Assumir a dependência de terceiros como risco próprio. Fornecedores de software, MSPs, plataformas de nuvem e ambientes de atendimento continuam sendo alvos de alto valor para impacto em cascata — o fornecedor sueco que parou 200 municípios é a prova.
  6. Proteger o stack de segurança. Ataques a ferramentas EDR e o abuso de drivers vulneráveis (BYOVD) mostram que a camada de defesa virou alvo de primeira classe.
  7. Tratar a IA como superfície de ataque. Aplicações de IA com acesso a arquivos, credenciais e sessões precisam do mesmo rigor de revisão que qualquer sistema privilegiado.

Para quem quiser ir além do resumo — e a leitura vale muito — o PDF oficial é aberto e está linkado abaixo. A edição 2026 tem uma qualidade que não é comum em relatórios institucionais: ela diz explicitamente onde os dados são frágeis. A ressalva de que campanhas de ciberespionagem são documentadas com atraso que varia de seis meses a mais de quatro anos, e a observação de que aumento de reporte nem sempre significa aumento de atividade, são o tipo de honestidade metodológica que faz o documento valer como fonte primária, e não apenas como material de divulgação.


Fonte original: ENISA Threat Landscape 2026 highlights ransomware, vulnerability exploitation, AI-enabled attacks across EU organizations — industrialcyber.co (Industrial Cyber), 23 de setembro de 2026, por Anna Ribeiro.

Comunicado de imprensa da ENISA (citado na nota de leitura abaixo): Exploring the evolution of the cyber threat landscape: How dependencies weaken our digital resilience — enisa.europa.eu, 22 de setembro de 2026.

Fonte primária (documento completo, lido na íntegra): ENISA Threat Landscape 2026 — Final — enisa.europa.eu, setembro de 2026, 101 páginas, autoria ENISA. Período coberto: 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025. Base: 8 257 incidentes. ISBN 978-92-9204-807-5, DOI 10.2824/0806036, classificação TLP:CLEAR, licença CC BY 4.0.

Página de publicação da ENISA: ENISA Threat Landscape 2026 — enisa.europa.eu.

Fontes citadas pelo próprio relatório, consultadas como referência cruzada: ENISA NIS360 2026 (zona de risco cibernético da administração pública) · ENISA NIS Investments 2025 (DDoS como “ruído”, ransomware como preocupação dominante) · ENISA Technical Advisory on Package Managers (março de 2026) · Plano de Ação da UE para Cibersegurança e IA.

Nota de leitura — divergência verificada entre as duas fontes da própria ENISA. Comparando o comunicado de imprensa da agência (22 de setembro de 2026) com o corpo do PDF final, os percentuais não batem:

Métrica Comunicado de imprensa PDF final (documento primário)
Crime cibernético no total de eventos 36% 29,3%
Ransomware 40% 47,3% (dentro das reivindicações financeiras)
Violações de dados 31% 36%
Fraude e impersonação 19% 13,3%
Atores estatais por operações de intrusão 87% 81,7%
Fraude de investimento online (EBA, 2024) 4 bilhões de euros 4,2 bilhões de euros

Os denominadores e as categorias não são os mesmos entre as duas publicações, e os números se contradizem. A própria cobertura de imprensa herdou a mistura: o texto da Industrial Cyber abre atribuindo 36%/40%/31%/19% ao relatório e, mais adiante no mesmo artigo, reproduz corretamente os 29,3% do resumo executivo. Este post segue os números do documento final, que é a fonte primária — mas quem citar a ENISA deve indicar qual das duas fontes está usando.

Imagem: Globo terrestre suspenso sobre uma mão, com o Brasil e a América do Sul em destaque, por Maurício Mascaro, via Pexels, licenciada sob a Pexels License.


👉 Veja também nossa análise comparativa dos melhores modelos de IA em: blog.ideias.casa/melhores-ia