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Gartner revela as principais tendências de tecnologia no governo em 2026

A Gartner divulgou em 14 de setembro de 2026, em Gold Coast, na Austrália, durante o Gartner IT Symposium/Xpo APAC, sua lista das principais tendências de tecnologia no governo para 2026. O documento original — um press release assinado pelo analista Dean Lacheca, VP Analyst da casa — desenha um setor público pressionado por três forças simultâneas: a adoção de IA em escala empresarial, a aceleração das ameaças cibernéticas e a exigência de fazer mais com recursos finitos.

“Os CIOs de governo estão operando em um dos períodos mais disruptivos da memória recente”, afirmou Lacheca. “A IA está remodelando a forma como os governos entregam serviços; as ameaças cibernéticas evoluem mais rápido do que as defesas tradicionais conseguem responder; e as agências estão sob pressão crescente para fazer mais com recursos finitos. O desafio não é mais identificar oportunidades de tecnologia, mas construir organizações capazes de se adaptar rápido o suficiente para aproveitá-las.”

Vale registrar um detalhe da própria estrutura do documento: a lista de 2026 traz três tendências, contra cinco da edição de 2024. O enxugamento é revelador — o que antes era um leque de frentes paralelas agora se concentra em um núcleo único, com a IA no centro e a segurança e as pessoas como condições de viabilidade. E a sequência de três anos mostra exatamente onde a ênfase se deslocou, como veremos adiante.

Tendência 1: gerenciar o efeito cascata da IA agêntica

Os governos estão saindo da fase de experimentação e entrando na adoção em escala empresarial — e os agentes de IA aparecem como o principal catalisador dessa transição. Segundo o Gartner, a IA agêntica vai apoiar operações governamentais, melhorar a experiência do cidadão, acelerar o desenvolvimento de software e automatizar processos rotineiros de decisão.

Para Lacheca, a conversa precisa mudar de lugar: “A discussão sobre IA deve migrar da implementação de tecnologia para a transformação organizacional. O sucesso com IA agêntica dependerá de governança moderna, preparo da força de trabalho e da capacidade de redesenhar processos de negócio, criando uma base adaptável para inovação futura.”

A pesquisa do Gartner indica que muitos governos já exploram marcos de governança, identidades digitais e modelos operacionais para sustentar o uso crescente de agentes de IA. A recomendação é estabelecer roteiros de IA orientados a resultados e definir métricas claras para medir o valor dos investimentos — ou seja, sair da pergunta “qual modelo usamos?” para “que resultado público isso produz e como medimos?”.

Tendência 2: cibersegurança exige uma cultura que evolui sempre

Avanços em IA, tensões geopolíticas e a chegada da computação quântica estão mudando o terreno da segurança de forma estrutural. A orientação do Gartner é que órgãos públicos abandonem a lógica de revisões periódicas e conformidade pontual em favor de estratégias adaptativas, em evolução contínua.

“A cibersegurança não pode mais ser tratada como uma função estática”, disse Lacheca. “A IA está reduzindo o tempo entre a descoberta de uma vulnerabilidade e sua exploração, enquanto a computação quântica força os governos a repensar como protegem informações sensíveis. Resiliência, automação e agilidade criptográfica precisam se tornar componentes centrais de qualquer estratégia de segurança.”

O Gartner recomenda quatro movimentos concretos: automatizar operações de segurança sempre que possível; melhorar a visibilidade da cadeia de suprimentos digital; estabelecer planos de prontidão para criptografia pós-quântica; e reforçar a governança sobre soberania de dados e risco de terceiros.

Tendência 3: repensar a entrega de serviços de tecnologia

A terceira tendência é a menos tecnológica das três — e talvez a mais difícil. Tecnologias emergentes, força de trabalho mais alfabetizada digitalmente e demanda por novas competências técnicas estão obrigando os governos a repensar como os serviços de tecnologia são entregues. Organizações preparadas para o futuro serão construídas em torno de equipes letradas em digital e em IA, o que exige modelos operacionais adaptativos e estruturas de governança que permitam inovação em toda a organização sem perder responsabilização.

“Tecnologia será sempre uma ferramenta ou um gatilho; a transformação, no fim, é sobre pessoas”, afirmou Lacheca. “As áreas de TI de governo que se mantiverem relevantes serão as que investirem em capacidades da força de trabalho, redesenharem como o trabalho é feito e construírem um modelo operacional de tecnologia que evolua tão rápido quanto a própria tecnologia.”

O dado que sustenta a tendência vem de uma pesquisa do Gartner com 1.219 CIOs e líderes de TI, realizada em janeiro de 2026: 78% dos respondentes do setor público pretendem investir em pessoas para avançar suas principais iniciativas de tecnologia. A recomendação é priorizar alfabetização em IA, modernização da força de trabalho e flexibilidade organizacional, sem abrir mão de eficiência operacional.

O que mudou desde 2024 — e por que o número de tendências caiu

Para entender a edição de 2026, vale olhar as duas listas anteriores. Em abril de 2024, em Sydney, o Gartner publicou cinco tendências para governo, sob análise do VP Analyst Todd Kimbriel:

  • segurança adaptativa — proteção que se ajusta continuamente ao cenário de ameaças;
  • ecossistemas de identidade digital — identificação interoperável entre agências e serviços;
  • IA para inteligência de decisão — modelos de apoio a decisões administrativas humanas;
  • agilidade de plataformas digitais — nuvem setorial e plataformas de baixo código para reuso de serviços;
  • gestão programática de dados — dados públicos tratados como infraestrutura governada.

Naquele documento, o Gartner projetava que, até 2028, o uso de IA multiagente em detecção de ameaças e resposta a incidentes subiria de 5% para 70% das implementações de IA — para aumentar a capacidade das equipes, não para substituí-las. Projetava também que pelo menos 500 milhões de usuários de smartphone fariam regularmente declarações verificáveis com carteiras de identidade digital baseadas em livro-razão distribuído até 2026; que mais de 70% das agências governamentais usariam IA para aprimorar a decisão administrativa humana até 2026; e que mais de 60% das organizações de governo priorizariam investimento em automação de processos de negócio até 2026, contra 35% em 2022.

Em agosto de 2025, a lista já havia encolhido para três tendências — e, naquele ano, vinha explicitamente recortada para a região Ásia-Pacífico. Eram elas: agentes de IA para serviços e suporte ao cidadão sob medida; laboratórios de inovação digital e sandbox de dados; e adoção de IA orientada por governança. O Gartner projetava então que, até 2028, pelo menos 80% dos governos teriam a adoção e o monitoramento contínuo de IA auditados de forma independente.

Comparar as três listas mostra uma convergência e um deslocamento. O que era “adotar IA para decidir” (2024) virou “agentes de IA atendendo o cidadão” (2025) e, agora, “gerenciar o efeito cascata da IA agêntica” (2026) — ou seja, o gargalo deixou de ser o modelo e passou a ser a governança da autonomia. O que era “segurança adaptativa” (2024) reaparece em 2026 como cultura de segurança que evolui sempre, com um elemento que não existia antes: prontidão pós-quântica e agilidade criptográfica. E as cinco frentes de 2024 — identidade, plataformas, dados — foram absorvidas: identidade digital aparece agora como pré-requisito interno da tendência de IA agêntica, e plataformas e dados deixaram de ser itens próprios para se tornar a pergunta sobre pessoas, que é a terceira tendência.

Um dado adicional do próprio Gartner ajuda a dimensionar a aposta: a casa projeta que, até 2029, 60% das agências governamentais no mundo usarão agentes de IA para automatizar mais da metade das interações transacionais com o cidadão — contra menos de 10% em 2025.

O que isso significa na prática

Lidas em conjunto, as três tendências de 2026 formam uma sequência lógica de dependências. IA agêntica só escala com governança e identidades digitais maduras. Governança só se sustenta com segurança que evolui mais rápido do que a exploração. E segurança automatizada só funciona com gente capaz de supervisionar, auditar e redesenhar processos.

Para quem decide no setor público, o documento sugere três perguntas de controle antes de qualquer nova onda de investimento: existe roteiro de IA orientado a resultados, com métricas de valor acordadas? Existe plano de prontidão pós-quântica e visibilidade da cadeia de fornecedores? E existe um programa real de alfabetização em IA para o corpo técnico — ou o tema ainda está restrito ao comitê de inovação?

Vale ainda um alerta de leitura: se as listas de 2024 e 2025 são a referência, parte das projeções de 2026 será cobrada nos próximos dois anos — e as metas de 2028, como auditoria independente de IA em 80% dos governos, são o tipo de compromisso que se verifica em orçamento e em decreto, não em comunicado.

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Fonte original: Gartner Reveals Top Technology Trends in Government - gartner.com (Gartner Newsroom), Gold Coast, 14 de setembro de 2026, por Dean Lacheca, VP Analyst. Anunciado no Gartner IT Symposium/Xpo 2026 APAC.

Fonte consultada (transcrição integral da release): Gartner reveals top technology trends in government - govtechreview.com.au, 14 de setembro de 2026.

Fonte consultada (republicação): Gartner Reveals Top Government Technology Trends for 2026: AI, Cybersecurity and Digital Transformation - eletimes.ai, por ELE Times Research Desk, 21 de setembro de 2026.

Fontes de referência consultadas (edições anteriores da mesma lista): Gartner Announces the Top Government Technology Trends for 2024 (Sydney, 16 de abril de 2024, por Todd Kimbriel) · Gartner Unveils Top Government Trends in APAC (Sydney, 21 de agosto de 2025, por Dean Lacheca).

Fonte de referência consultada (projeções adicionais): Gartner Reveals Top Technologies Shaping Government AI Adoption (Gold Coast, 9 de setembro de 2025), origem da projeção de que 60% das agências automatizarão mais da metade das interações transacionais com o cidadão até 2029.

Imagem: Hemisfério do Parlamento Europeu em Estrasburgo, França, com as cadeiras dispostas em arquibancada e as bandeiras dos Estados-membros ao fundo, por Sebastian Wallroth, via Wikimedia Commons, licenciada sob CC BY 4.0.


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