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Como escolher ferramentas de governança de identidades e de agentes de IA em 2026 — o que a 'defesa contínua' exige

Dez fornecedores. Dez capítulos. Cada um explicando por que o setor precisa mudar — e por que a resposta é o produto que ele vende. Publicado no The Hacker News em 3 de outubro de 2026, o State of Cybersecurity in 2026 é conteúdo patrocinado: o próprio veículo avisa, ao final, que o texto é “uma peça contribuída de um de nossos parceiros”. O download do documento completo fica em report.papryon.com/thehackernews. Ao longo deste texto, mostramos o que o relatório revela — e, no fim, o que exigir de uma ferramenta de governança de identidades (o controle de quem, ou do quê, tem acesso a cada sistema) antes de comprá-la.

O formato é explícito. O relatório divide a cibersegurança em dez “segmentos-chave” e, para cada um, apresenta um fornecedor diferente, com citação do executivo e links de site e LinkedIn. Não há números próprios na versão publicada pelo veículo — nem metas, nem percentuais de adoção. O que existe é uma tese comum, ainda que genérica: segurança não pode mais ser um evento periódico, e sim uma disciplina contínua de visibilidade e resposta. Na mesma semana, um artigo assinado por outro fornecedor deu nome ao enquadramento que atravessa essas peças: a “defesa contínua” contra a IA de fronteira — os modelos de inteligência artificial mais avançados disponíveis a cada momento. A edição anterior, de janeiro de 2026, seguiu exatamente o mesmo desenho, com boa parte de outra equipe de patrocinadores (The Hacker News). O “estado da cibersegurança” virou, na prática, um gênero anual de marketing de conteúdo — assinado, no caso, pela Papryon, braço de relatórios executivos da agência de marketing B2B ReyScale, que hospeda o documento.

Quem fala, e sobre o quê

Os dez segmentos, com os respectivos fornecedores, seguem o mesmo roteiro: um problema, uma citação, um produto (The Hacker News). Alguns exemplos bastam para dar o tom.

  • Segurança de identidade — Keeper Security. Gestão contínua de identidades humanas e não humanas (as contas de máquina, os robôs e agentes de IA — programas autônomos que agem sozinhos dentro dos sistemas — e as chaves de acesso que existem sem uma pessoa por trás), com privilégio mínimo (cada um com o menor acesso possível para fazer seu trabalho). “Gerenciar várias ferramentas desconexas é, em si, um passivo de segurança”, diz o CEO e cofundador Darren Guccione.
  • Inteligência de risco humano — Nisos. Atribuição digital (descobrir quem está por trás de uma conta ou de um ataque) e investigação sobre funcionários, executivos e terceiros. “Integridade de identidade é o novo firewall”, diz o CEO Ryan LaSalle.
  • Operações de segurança nativas de IA — SentinelOne. Uso de IA no SOC (o centro que monitora e responde a incidentes) para automatizar investigação. “A IA acelera, apoia e sugere, mas não substitui o julgamento humano”, ressalva Paolo Cecchi, vice-presidente de vendas para a região do Mediterrâneo.
  • Segurança em nuvem — CrowdStrike. Proteção unificada de identidade, endpoint (cada dispositivo conectado) e nuvem em tempo real. “As capacidades tradicionais de detecção e resposta na nuvem, que dependem de modelos estáticos de risco e do processamento de registros em lote, são simplesmente lentas demais para o cenário de ameaças atual…”, diz Kartik Shahani, vice-presidente para a Índia e para a SAARC (Associação Sul-Asiática para Cooperação Regional).

Os outros seis capítulos repetem a fórmula: Cribl (telemetria e gestão de dados — a telemetria são os registros que máquinas e sistemas geram sobre o que fazem), Automox (gestão de endpoints e correção contínua de falhas), Adaptive Security (segurança humana contra a engenharia social, os golpes que manipulam pessoas), Surf AI (gestão de exposição — mapear e reduzir os pontos do sistema que podem ser atacados), Red Sift (segurança de e-mail e domínio) e Asimily (segurança de dispositivos conectados). Cada um termina numa frase de efeito de seu executivo.

Nenhuma dessas falas é fato verificado: são alegações de fornecedores sobre o próprio mercado em que vendem. Lidas em conjunto, porém, elas convergem para um argumento que também circula em artigos assinados por fornecedores.

A “terceira era” da cibersegurança

Esse argumento tem uma versão mais articulada, publicada também em outubro, no Security Boulevard, por Varun Iravatham, CEO da NopalCyber (Nopal Cyber). Ele divide a história em três eras. A primeira foi a do perímetro: firewalls e controles de acesso para manter o de fora do lado de fora. A segunda foi a da detecção e resposta: dissolvido o perímetro pela nuvem e pelo trabalho remoto, o setor passou a aceitar que invasões acontecem e a investir em centros de operações, plataformas de correlação de eventos e detecção em dispositivos. A terceira, agora, é a da velocidade, escala e continuidade.

O que muda não é o tipo de ataque, diz ele, mas sua economia. Segundo Iravatham, tarefas que exigiam semanas de trabalho manual — reconhecimento contínuo, engenharia social hiperpersonalizada, descoberta acelerada de falhas, execução que se adapta às defesas — passam a caber em horas. Com isso, alvos antes considerados pequenos demais para valer o esforço se tornam viáveis, porque a automação torna o ataque em massa economicamente razoável. A resposta proposta é uma mudança de disciplina: em vez do ciclo “avaliar, corrigir e esperar”, um regime permanente de monitorar, detectar, validar, responder e aprender, sem estado de repouso entre ciclos.

Vale declarar o interesse em jogo. Iravatham é CEO da NopalCyber, empresa que vende justamente detecção e resposta gerenciadas — e o artigo conclui defendendo que as organizações contem com parceiros externos. A tese e a oferta comercial caminham juntas, como as dez do relatório patrocinado caminham com seus patrocinadores.

O que é “IA de fronteira” — e o que ela não é

O termo frontier AI, a IA de fronteira, vem do artigo assinado por Iravatham e de agências públicas — não do relatório patrocinado, que fala apenas de visibilidade e resposta contínuas. Ela designa os modelos mais avançados e capazes disponíveis a cada momento. Não há definição única e vinculante para a expressão — é de mercado e de política, não uma categoria técnica fechada. Duas agências públicas, porém, ajudam a fixar o sentido.

O NCSC, o centro de cibersegurança do Reino Unido, descreve a IA de fronteira como “as ferramentas de IA mais avançadas”, que tornam ataques sofisticados “mais fáceis, mais rápidos e mais baratos” até para criminosos de baixa qualificação. O NCSC acrescenta duas ressalvas que contrariam o clima publicitário: a IA avançada “não muda fundamentalmente o risco cibernético”, apenas aumenta a velocidade e a escala com que fraquezas já existentes são encontradas e exploradas — e os fundamentos de segurança continuam sendo a melhor proteção. A agência diz que, no fim, a IA tende a ser um saldo líquido positivo para a defesa, mas que o caminho até lá exige ação imediata e participação da diretoria (NCSC).

O Centro Canadense de Cibersegurança vai no mesmo sentido: chama de IA de fronteira os modelos “mais recentes, capazes e avançados” e observa que alguns já exibem desempenho “sem precedentes” em descoberta autônoma de vulnerabilidades, geração de código de exploração (os exploits, programas que atacam a falha) para falhas zero-day (ainda sem correção) e orquestração de ataques em várias etapas. A recomendação, sobretudo para infraestrutura crítica, é preparar-se para operar em estado comprometido ou desconectado — uma postura bem mais dura que a promessa de comprar a ferramenta certa (Centro Canadense de Cibersegurança).

O outro lado da conta

O enquadramento “a IA muda tudo” tem ceticismo dentro do próprio setor. Em um post da série CISO Circle (voltada a CISOs, os executivos-chefes de segurança), a Splunk argumenta que não existe um “LLM sombrio” — um modelo de linguagem, tipo ChatGPT, secreto — otimizado para ataques: os adversários usam os mesmos modelos públicos que os defensores. A diferença, diz a empresa, está no contexto e nos dados — e aí os defensores levam vantagem, por operarem sobre dados privilegiados e estruturados, enquanto o atacante trabalha com visão parcial. A provocação final é direta: modelos de linguagem “não descobrem zero-days nem inventam exploits; apenas preveem texto plausível” (Splunk).

Lidas lado a lado, as fontes desenham um quadro menos dramático do que o material patrocinado sugere. As próprias vozes mais céticas reconhecem que a IA baixou o custo de atacar. Mas a alegação de que isso inaugura uma era inteiramente nova convive com a leitura mais sóbria de que o efeito principal é acelerar falhas que já existiam — e que a defesa depende menos de uma arma nova do que de fundamentos bem executados. Para quem também precisa escolher modelos de IA nesse cenário que muda rápido, nossa análise comparativa dos melhores modelos de IA acompanha e avalia as principais opções disponíveis no mercado.

O que observar

Nenhum dos dois textos traz números próprios — o que é, em si, um dado. O relatório completo está atrás de um formulário, e a página que o hospeda é renderizada por JavaScript: não há como auditar o documento a partir do que foi publicado. Sobram teses e citações, não evidências.

Vale reter o essencial. Um “estado da cibersegurança” bancado por dez fornecedores, com um fornecedor por segmento, é um mapa comercial, não um retrato neutro do setor. E a “defesa contínua”, que ambos os textos pregam, não é uma caixa para comprar: como lembram o próprio patrocinador de segurança de identidade (“ferramentas desconexas são um passivo”) e o autor da “terceira era” (menos sobre orçamento e número de ferramentas, mais sobre compromisso operacional), a receita prescrita contradiz o formato que a apresenta. Quem quiser testar a tese terá de olhar menos para o relatório e mais para dentro de casa: se os ciclos de avaliação encolheram, se a detecção deixou de depender só de listas de assinaturas (os padrões de ataques já conhecidos) e se a resposta deixou de ser um esforço manual.

Para quem decide a compra, a leitura útil não é a lista de dez segmentos, e sim o conjunto de critérios por trás dela — todos derivados das teses acima, não de um gabarito independente:

  • Visibilidade de todas as identidades, incluindo as não humanas (contas de serviço, robôs, agentes de IA e chaves de acesso) — o ponto de partida do capítulo da Keeper Security.
  • Privilégio mínimo aplicado o tempo todo, e não apenas conferido em auditorias de vez em quando.
  • Detecção baseada em comportamento, capaz de sinalizar desvios em vez de se limitar a listas de assinaturas conhecidas — a “detecção comportamental” que Iravatham opõe à dependência de assinaturas.
  • Integração real com as demais ferramentas de segurança já em uso, porque — como admitem os próprios fornecedores do relatório — ferramentas desconexas são um passivo, não uma proteção.

Como avaliar, e não como comprar: todas as dez empresas citadas aqui têm interesse comercial em vender exatamente o que o documento recomenda. Os critérios servem justamente para separar o que ajuda a governar do que apenas aumenta a mensalidade paga.


Fonte original: The State of Cybersecurity in 2026: Key Segments, Insights, and Innovations — The Hacker News (conteúdo patrocinado), 3 de outubro de 2026. Relatório completo: report.papryon.com/thehackernews (Papryon, braço de marketing de conteúdo B2B da ReyScale).

Fontes complementares: The Third Era of Cybersecurity: Why Frontier AI Demands Continuous Defense — Security Boulevard, por Varun Iravatham (CEO da NopalCyber), 5 de outubro de 2026; The State of Cybersecurity in 2025 — The Hacker News, 5 de janeiro de 2026; Frontier AI: what you need to know — NCSC (Reino Unido); Frontier artificial intelligence (ITSAP.10.050) — Centro Canadense de Cibersegurança, maio de 2026; Separating AI Hype from Reality for Defenders and Adversaries — Splunk CISO Circle, por Shannon Davis, 12 de fevereiro de 2026.

Imagem: Rack de rede com iluminação azul numa sala de servidores, por panumas nikhomkhai, via Pexels, sob a Licença Pexels.


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